De país do futuro à nova década perdida: entenda como o Brasil voou para trás

País encerra 2020 com a maior recessão da história, desemprego recorde e dólar em patamares inéditos; Covid-19 justifica grande parte do desastre econômico, mas não explica tudo

  • Por Gabriel Bosa
  • 25/12/2020 06h23
Montagem sobre foto de Marcelo Casal Jr./Agência Brasil Novo coronavírus abocanhou maior parte do crescimento econômico, mas culpa deve ser compartilhada com decisões erradas, intervenções políticas e desgaste entre Poderes

Ninguém estava contando com um crescimento brilhante da economia brasileira em 2020. Mesmo assim, nem na mais pessimista das previsões o cenário era tão sombrio como o que se desenrolou ao longo dos últimos meses. Na melhor das hipóteses, a avaria causada pela pandemia do novo coronavírus no Produto Interno Bruto (PIB) deve ficar na casa dos 4,4%, o pior resultado da série histórica iniciada em 1901, mas ainda melhor do que se desenhou no início da pandemia. Levantamento do banco Credit Suisse aponta que o país terá crescimento médio anual de 0,2% entre 2011 e 2020, bastante abaixo da média de 1,6% registrada no intervalo entre 1981 e 1990, popularmente conhecido como a década perdida pela estagnação da economia em meio à disparada da inflação e descontrole monetário. Sem dúvida, grande parte da fatia do desenvolvimento econômico nacional foi abocanhada pela maior emergência sanitária desde a Gripe Espanhola, porém, o Sars-CoV-2 não pode levar toda a culpa sozinho pelo desempenho pífio da economia brasileira nos últimos dez anos. Os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que a economia nacional já andava de lado antes mesmo da pandemia, reflexo de políticas equivocadas e investimentos mal feitos. Em 2019, o PIB cresceu 1,4%, ante avanço de 1,8% registrado em 2018, e 1,3% 2017. Os anos anteriores foram catastróficos: queda de 3,3% em 2016, antecedido por um tombo ainda maior, de 3,5%, em 2015. Em 2014, o PIB fechou com alta pífia de 0,5%. Os dados contrastam com a pujança econômica registrada no fim da primeira década do milênio e o início dos anos 2010, quando o Brasil surfava na onda global das commodities. Em 2011, a economia avançou 4%, seguida por alta de 1,9% em 2012, e crescimento de 3% em 2013.

A queda do patamar excepcional  — e que fez todo o mundo especular se finalmente o “futuro” havia chegado ao país — até a pior recessão em mais de um século, passa por diversos degraus. Enquanto a maior parte do globo ainda se recuperava da ressaca pós-crise financeira de 2008, o crescimento do Brasil no início da década foi puxado pelo avanço da China e a maior demanda global por commodities, principalmente minério de ferro. Em 2010, a economia do gigante asiático cresceu 10,6%, assim como o Brasil, que avançou 7,5%, o mais expressivo resultado da década. O ritmo desacelerou nos anos seguintes, mas se manteve forte o suficiente para garantir o aquecimento da economia brasileira. O bom humor durou até 2014, quando os sinais de políticas econômicas adotadas pelos governos petistas começaram a refletir diretamente no desempenho do país. Entre os principais equívocos, especialistas apontam a intervenção do Estado no mercado, o aporte de dinheiro público para subsidiar — e rebaixar artificialmente — os preços da energia elétrica e da gasolina, e o gasto fiscal acima da arrecadação. O desalinho foi notado já no apagar das luzes do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, e se tornou latente a partir da gestão de Dilma Rousseff. “A equipe dela achou que uma política de gastos expansionista, aliada com política monetária frouxa, seria o elixir do crescimento. Isso gerou uma série de incertezas nos agentes econômicos, forçando a paralisação dos investimentos”, afirma Fernando Ribeiro Leite, professor de economia do Insper.

A crise financeira se abateu de forma generalizada em todo o país, e foi sentida justamente pelas famílias que haviam ascendido socialmente durante a bonança dos anos anteriores, mas que a partir de 2014 se viram forçadas a regredir. O caos econômico equalizou uma série de insatisfações sociais, que culminaram em uma sequência de protestos que esfacelou a popularidade da governante. Diante da insatisfação nas ruas, o Congresso, que já vinha em choque com a inquilina do Alvorada, aceitou a abertura do processo de impeachment ao fim de 2015. O motivo foi justamente o desarranjo econômico. Segundo a acusação, Dilma havia cometido crime de responsabilidade fiscal ao autorizar a abertura de crédito no orçamento sem autorização do Legislativo e por atrasar repasses do governo federal a bancos públicos — chamado à época de pedaladas fiscais. “A presidente foi brilhante em desmontar toda a ordem macroeconômica para uma política populista que gerou um ambiente caótico”, afirma Ernesto Lozardo, ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Com pouco mais de dois anos de mandato-tampão pela frente, Michel Temer assumiu a Presidência da República em agosto de 2016 com o compromisso de reverter a estratégia expansionista dos governos anteriores. A aprovação do teto de gastos foi o principal símbolo dessa mudança na política econômica. O dispositivo, que estará em vigor até 2036, determina que o orçamento do governo federal é reajustado com base na inflação do ano anterior. Ou seja, como o próprio nome sugere, os gastos são limitados, criando uma perspectiva maior de controle por parte do Executivo. “O governo Temer foi curto, mas teve o mérito de estancar políticas erradas e aprovar reformas que nos ajudam agora. Sem essa âncora do teto de gastos, estaríamos em uma situação ainda mais complicada e frágil”, diz Emerson Marcal, coordenador do Centro de Macroeconomia Aplicada da Fundação Getulio Vargas (FGV).

O governo de Jair Bolsonaro assumiu o país em um cenário de baixa recuperação econômica e enormes desafios para retomar o caminho do crescimento. A estratégia da nova gestão, personificada na figura de Paulo Guedes, que assumiu o super Ministério da Economia após a junção das pastas da Fazenda, Trabalho, Indústria e Planejamento, foi baseada na cartilha do liberalismo econômico. Entre outras medidas, a corrente defende a menor participação do Estado na economia, a autorregulamentação de mercado e o crescimento econômico com base em investimentos privados. Ainda em campanha, Guedes desenhou o avanço da economia do país pautado em uma série de reformas nas áreas previdenciária, tributária e administrativa. O plano era atacar nas duas pontas: cortar excesso de gastos e economizar com despesas. O projeto ousado também prometia a privatização de estatais, com a arrecadação de mais de R$ 1 trilhão aos cofres públicos. O otimismo não demorou para dar lugar à frustração. Após uma série de desencontros e desgastes com os outros Poderes, o governo conseguiu aprovar apenas a reforma da Previdência ao fim de 2019, prometendo agilizar o processo de mudanças estruturais no ano seguinte. A situação parecia favorável ao país. O dólar estava pouco acima dos R$ 4, e o Ibovespa, principal índice da Bolsa de Valores brasileira, fechou o último pregão do ano acima dos 115 mil pontos — um recorde —, sinalizando a retomada de confiança dos investidores após anos de aversão ao mercado brasileiro.

Antes mesmo da eclosão da pandemia do novo coronavírus no Brasil, a partir de março, já estavam claros os sinais do tamanho da encrenca que estava à frente após a paralisação de atividades na China, e, posteriormente na Europa. Não era difícil prever que menos dia ou mais dia a situação chegaria neste lado do Atlântico, e que o resultado em uma economia que ainda nem havia se recuperado de crises recentes seria devastador. Em poucos meses, a Covid-19 levou à pique setores fundamentais da economia nacional. Por causa das medidas de isolamento social, o estrago foi especialmente significativo no segmento de serviços — como hotéis, bares, restaurantes e toda a cadeia de viagens — justamente o principal mercado empregador e maior componente do PIB. O tombo histórico de 9,6% da economia no segundo trimestre, somado ao recuo de 1,5% no período anterior, deixou o país oficialmente em recessão técnica. “Havia uma estratégia de desenvolvimento do atual governo para a aprovação de reformas e atração de investimentos internacionais. A pandemia veio e atropelou tudo. A prioridade se tornou não deixar o brasileiro sem renda, então tudo o que o governo havia economizado, foi embora”, diz Lozardo.

O retrato atual é um país que há mais de meia década apresenta um desenvolvimento econômico pífio, e que encerará o ano com o maior recuo do PIB da sua história. Falando em números recordes, o Brasil fecha a década com 14 milhões de pessoas sem trabalho, o maior índice de desemprego da série histórica divulgada pelo IBGE, e com o dólar rondando patamares nunca vistos desde a criação do Plano Real, há mais de 25 anos. “Este ano foi muito ruim, mas os resultados poderiam ter sido absorvidos caso os anos anteriores tivessem sido bons. Tivemos problemas que foram maturando, no pior sentido da palavra, e quando estávamos começando a se recuperar do primeiro tombo, veio o segundo”, diz Marcal, da FGV. Para Ribeiro Leite, professor de economia do Insper, o rótulo de nova década perdida representa a realidade brasileira. “O país vem crescendo pouquíssimo, e em 2015 já tivemos a maior recessão sem Covid-19. É algo muito assemelhado à década de 1980, que foram anos de assombro.”