Moçambique vai às urnas para garantir a paz

  • Por Agencia EFE
  • 14/10/2014 20h54

Jesús Sanjurjo.

Maputo, 14 out (EFE).- Pouco mais de um mês depois do acordo de cessação de hostilidades entre o presidente de Moçambique, Amando Guebuza, e o candidato do principal partido da oposição, Afonso Dhlakama, dois rivais históricos, Moçambique buscará garantir a paz nas urnas na próxima quarta-feira.

A eleição do terceiro presidente do país desde a independência de Portugal (1975) e a renovação do parlamento estará marcada pela assinatura do acordo de paz de 5 de setembro entre a governante Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) e o principal partido opositor, a Resistência Nacional Moçambicana (Renamo).

O pacto de Guebuza – que não será candidato à reeleição pela Frelimo, mas segue como presidente do partido – e Dhlakama, pretende enterrar um conflito enquistado entre ambas legendas desde a cruenta guerra civil e que reviveu nestes dois últimos anos.

A origem desta crise remonta a outubro de 2012, quando Dhlakama, líder da oposição no parlamento, fugiu para as florestas de Gorongosa, no centro do país, para reativar o quartel militar que ele mesmo utilizou durante a guerra civil.

Anteriormente, o antigo guerrilheiro tinha ameaçado restabelecer a milícia da Renamo – ex-grupo rebelde reconvertido em principal partido da oposição – para tentar tirar a Frelimo do governo, já que, segundo Dhlakama, estava monopolizando o poder e os recursos naturais do país.

Em resposta, as Forças Armadas atacaram e invadiram o quartel de Satungira em outubro de 2013, Dhlakama se refugiou em um “lugar incerto” nas montanhas de Gorongosa e se aguçaram os ataques, principalmente na região central de Sofala.

Após a atuação militar do governo, a Renamo considerou quebrados os acordos de Roma que puseram fim à guerra civil, em 1992, e advertiu que estenderia a guerra a todo o país se não permitissem a inscrição de Dhlakama no censo eleitoral.

A poucas horas para o fechamento do registro, o líder da Renamo conseguiu inscrever-se e apresentar-se como candidato ao pleito, após sua volta a Maputo para assinar o recente acordo de paz.

“O cenário que já se viveu nos leva a pressagiar uma situação de violência de grandes proporções após o anúncio dos resultados, caso algum dos participantes não os reconheça e alegue uma possível fraude”, advertiu à Agência Efe a presidente da Liga de Direitos Humanos de Moçambique, Alice Mabota.

Embora cerca de 30 partidos tenham apresentado candidatos, apenas três cumpriram os requisitos mínimos para aspirar à presidência de Moçambique: a socialista Frelimo, a conservadora Renamo e o centrista Movimento Democrático de Moçambique (MDM).

Uma vez que a Constituição impede Guebuza de concorrer a um terceiro mandato, a Frelimo escolheu outro candidato: o ministro da Defesa, Filipe Nyussi, que goza da confiança do presidente moçambicano e da simpatia de muitos cidadãos por ser filho de ex-combatentes.

O antigo guerrilheiro e eterno candidato da Renamo, Dhlakama, concorrerá pela quinta vez às eleições, que sempre perdeu contra a Frelimo, o partido que governou o país nos últimos 20 anos.

Finalmente, o candidato do MDM, Daviz Simango, brigará pela presidência depois que sua legenda entrou no parlamento nas últimas eleições, em 2009, quando obteve oito das 250 cadeiras da câmara baixa.

Não em vão, os moçambicanos também votarão para renovar a Assembleia da República para um período de cinco anos, um prazo similar ao do mandato do próximo presidente.

Várias organizações sociais denunciaram irregularidades durante a campanha, como o uso de publicidade institucional para promover a Frelimo ou de pressão policial contra simpatizantes da oposição.

A Comissão Nacional de Eleições, órgão que fiscaliza o processo, se mostrou preocupada pela violência que está acompanhando o processo eleitoral.

“Nos reunimos com os partidos políticos para pedir calma e cautela durante a campanha política”, declarou à Agência Efe o porta-voz desta comissão, Paulo Cuinica.

Cerca de dois mil observadores internacionais procedentes de Estados Unidos, União Europeia, China, Vietnã, Nigéria, Botsuana, Japão e Alemanha supervisionam o processo, cujos resultados serão divulgado em menos de um mês após a jornada eleitoral. EFE