Contrária ao Brexit, Escócia deve pedir independência do Reino Unido

A insatisfação com a forma como Boris Johnson está lidando com a pandemia e as incertezas sobre um novo acordo comercial com a União Europeia estão fazendo crescer o nacionalismo escocês

  • Por Bárbara Ligero
  • 01/12/2020 13h20
Wikimedia Commons Endrick ShellycoatA Escócia já teve um pedido de votação negado em janeiro, mas agora possui maior apoio popular para levar a ideia da independência adiante

Historicamente, a Escócia foi independente até 1707, quando se tornou parte do Reino da Grã-Bretanha. Desde então, a ambição de voltar a ser um estado autônomo existe pontualmente dentro de alguns partidos políticos, que defendem que, às vezes, os interesses de todo o Reino Unido entram em conflito com os interesses específicos escoceses. A última vez que foi realizado um referendo sobre a questão foi em 2014, quando a maioria da população (55%) preferiu a permanência no país. Na época, o principal argumento contra a separação era o risco da Escócia ficar de fora da União Europeia. Com o Brexit, esse temor se concretizou. Apesar de ser amplamente contra a medida, a Escócia será retirada do bloco econômico no próximo dia 31, juntamente com a Inglaterra, o País de Gales e a Irlanda do Norte. Atualmente, a primeira-ministra da Escócia é Nicola Sturgeon, líder do partido pró-independência SNP. Dessa forma, como já era esperado, ela anunciou em setembro que faria uma nova votação sobre a independência. Nesta segunda-feira, 30, ela voltou a tocar no assunto, reiterando que pedirá autorização para realizar um referendo ao governo britânico. Segundo uma pesquisa realizada entre os dias 5 e 11 de novembro pela PanelBase, 51% dos escoceses hoje são a favor da independência, contra 40% que são contrários à medida. Os outros 8% afirmaram estar indecisos sobre a questão. Outros levantamentos realizados pela mesma instituição ao longo do ano mostram que a maioria dos escoceses não queria a separação do Reino Unido até março, quando os números começaram a virar a favor da independência.

Isso indica que a pandemia de coronavírus pode ter tido uma influência na mudança de pensamento da população. O primeiro-ministro Boris Johnson tem sido criticado pela forma como guiou o Reino Unido no combate à Covid-19. Em março, uma pesquisa da YouGov mostrou que 46% dos britânicos achavam que Johnson estava se saindo bem no cargo, contra 42% que pensavam o contrário. No entanto, a partir de maio as estatísticas começaram a ser desfavoráveis ao primeiro-ministro. O levantamento mais recente da instituição, feito em setembro, mostra que apenas 35% das pessoas estão aprovando o seu governo, contra 57% que defendem que ele está tendo um desempenho ruim. Apesar de ter saído do lockdown, o Reino Unido ainda está vivendo restrições duras na maior parte do seu território, o que fez com que o  nível de contágio reduzisse em 30%, segundo um estudo do Imperial College London. No entanto, a nação prevê uma queda histórica em seu PIB, que deve ter a maior contração em 300 anos. Além disso, o Reino Unido está caminhando para o maior endividamento já visto em tempos de paz, ou seja, considerando apenas os períodos em que o país não estava em guerra. Até o final do ano, serão 394 bilhões de libras em dividendos.

O crescimento do nacionalismo escocês também está acontecendo em um momento de pouca evolução nos diálogos para estabelecer um novo acordo comercial entre o Reino Unido e a União Europeia após o Brexit. Apesar da proximidade do dia 31 de dezembro, quando acaba o período de transição, as partes envolvidas ainda não conseguiram chegar a um novo pacto. Se as tentativas realmente fracassarem, a relação entre o país e o bloco serão regidas pelas regras tarifárias gerais da Organização Mundial do Comércio (OMC), que são menos favoráveis que as condições atuais. Questionado sobre o assunto, o primeiro-ministro Boris Johnson afirmou que as chances do novo tratado acontecer dependem mais do interesse da União Europeia, visto que o Reino Unido pode “prosperar poderosamente” independentemente disso. Em resposta ao comentário, a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, defendeu que um pacto pós-Brexit também não é vital para a União Europeia. “Não necessitamos de um acordo a qualquer preço”, pontuou durante uma reunião com outros parlamentares europeus. Nesse ínterim, o governo britânico se opõe veementemente à independência da Escócia, que terá uma longa luta pela frente até que o seu desejo se concretize. Em janeiro, Boris Johnson rejeitou formalmente um pedido do governo escocês para a realização de um novo referendo sobre a independência. No entanto, dessa vez os partidos separatistas possuem um maior apoio popular para levar a votação adiante.