Agroquímicos piratas já representam um quarto do mercado, aponta especialista
Especialista defende uso de tecnologia e rastreabilidade para conter produtos falsificados e proteger a cadeia produtiva do agronegócio
O agronegócio brasileiro, um dos pilares da economia nacional, enfrenta um desafio crescente: o mercado ilegal de produtos agroquímicos e insumos. Renato Seraphim, engenheiro agrônomo com mais de 30 anos de experiência, compartilha sua visão sobre essa questão complexa e as possíveis soluções para garantir a segurança e a eficácia na produção agrícola. O tema tem sido alvo de discussões depois que o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) lançou o Programa Nacional de Rastreabilidade de Agrotóxicos e Afins (PNRA), tema de debate na semana passada durante audiência na Câmara dos Deputados.
Seraphim é um dos defensores do PNRA como meio de combate ao agroquímico pirata e infiltração do crime organizado e de facções como o PCC no mercado paralelo. Em conversa com a Jovem Pan, ele enfatiza que o mercado ilegal sempre existiu no setor, com produtos entrando pelo Paraguai e falsificações circulando nas bodegas. “Desde que eu me conheço por agrônomo, esse mercado sempre existiu”, afirma. Ele destaca que, atualmente, estima-se que entre 20% a 25% do mercado de agroquímicos no Brasil seja ilegal, representando uma fraqueza significativa em um setor que movimenta cerca de R$ 360 bilhões.
Essa situação se torna ainda mais alarmante quando consideramos que o mercado de farmácias, que inclui produtos de saúde, é de aproximadamente R$ 90 bilhões. “Quando você olha 360 bi, se você coloca 25 de mercado, o que acontece? Não acontece só em agroquímicos; pode acontecer em fertilizantes, produtos biológicos e sementes piratas”, observa Seraphim.
Para enfrentar o problema, Seraphim diz que não há como fugir da implementação de sistemas de rastreabilidade e receituários agronômicos, como o PNRA. “Todo produto agroquímico aplicado no Brasil precisa de um receituário agronômico”, afirma. Segundo ele, a rastreabilidade ajudaria a garantir que os agricultores utilizem produtos legítimos e seguros, prevenindo o uso de insumos inadequados ou falsificados.
Com a tecnologia disponível hoje, como QR Codes, é possível criar mecanismos que aumentem a segurança e a transparência na cadeia produtiva. “A segurança que nós vamos dar para o agricultor, o custo-benefício é muito grande”, diz Seraphim, destacando que a implementação dessas tecnologias não onera significativamente o preço final para o consumidor.
O agrônomo também aponta que a indústria precisa se organizar para fornecer produtos genuínos e de qualidade aos agricultores. “Se a indústria não oferecer isso para o agricultor de uma forma consistente, vai ficar mais difícil”, alerta. Ele sugere iniciar pela regularização dos produtos com maior custo e maior incidência de falsificações, uma estratégia que pode servir como um modelo para outras categorias de insumos.
Além disso, o agrônomo enfatiza que a responsabilidade não é apenas da indústria, mas de todos os envolvidos na cadeia produtiva. “Esse é um problema de todo mundo. É um problema da indústria, é um problema de nós agrônomos e é um problema para o agricultor”, ressalta.
Seraphim conclui que a regularização do mercado ilegal é um passo crucial para fortalecer o agronegócio brasileiro e promover divisas para o país. “Quanto mais nós nos organizarmos, mais nós vamos conseguir promover divisas. Essa regularização vai ser um prêmio para todos que querem fazer as coisas certas no Brasil”, finaliza.
*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.


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