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Política

Em meio a tensão com Trump, Lula diz no Mercosul que ‘ninguém é dono do mundo’

Presidente destacou a necessidade de que os países sul-americanos reforcem sua independência

Rafael Rintzel

Presidente Lula discursa na 68ª Cúpula de Presidentes do Mercosul.
Presidente Lula discursa na 68ª Cúpula de Presidentes do Mercosul. Reprodução / X

Em seu discurso na 68ª Cúpula de Presidentes do Mercosul, nesta terça-feira (30), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) destacou a soberania dos países sul-americanos, afirmando que “ninguém é dono do mundo e ninguém é dono da América do Sul”, em meio a tensões com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

A afirmação de Lula se refere às ações de controle do presidente norte-americano sobre outros países do mundo, que anunciou recentemente uma proposta de voltar a taxar produtos brasileiros com tarifas de 25%. Trump começou o tarifaço em abril de 2025, impondo valores adicionais sobre diversos países de todo o mundo, utilizando o poder comercial americano como forma de se impor sobre outras nações.

O petista também tem criticado outras medidas de controle de Trump sobre países sul-americanos, como a captura do ex-presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e a classificação das facções criminosas PCC e Comando Vermelho como grupos terroristas, ampliando a possibilidade de uma intervenção norte-americana no território brasileiro.

Em seu discurso, Lula ainda reforçou a necessidade de preservar a liberdade e independência dos países sul-americanos, defendendo seus interesses individuais para garantir seu espaço no mundo.

Ninguém é dono do mundo e ninguém é dono da América do Sul. Nenhum país do Mercosul ganhará mais liberdade de ação por meio de alinhamentos automáticos ou escolhas excludentes. Nossa força estará na capacidade de dialogar com todos, sem deixar de lado nossos interesses. Diversificar parcerias, ampliar a cooperação e preservar a autonomia são requisitos para que a região encontre seu espaço em um mundo em transformação.

Necessidade estratégica

O presidente afirmou aos demais líderes sul-americanos que o bloco econômico serve como uma proteção para seus integrantes, necessário em um momento de rivalidades geopolíticas e crescimento do unilitarismo mundial. Para o presidente, a união do Mercosul também serve como proteção para a instabilidade mundial e aumento de preços de alimentos e energia causado pelas guerras e conflitos em outras partes do mundo.

Em relação às parcerias do bloco, Lula comemorou o avanço do diálogo com Canadá, Índia e Vietnã e o acordo fechado com a União Europeia. Ele ainda celebrou um passo importante em negociações de uma parceria econômica com o Japão e anunciou que é de sua vontade também fazer acordos com a China em breve.

A participação do presidente incluiu o anúncio de um aumento nos investimentos brasileiros direcionados ao bloco. Lula quer elevar a contribuição ao Fundo para a Convergência Estrutural do Mercosul (FOCEM), que financia obras de infraestrutura nos países membros. O Brasil já é o maior contribuinte do bloco e deve aumentar seu repasse para US$ 100 milhões por ano durante uma década, valor que é equivalente à meta total de arrecadação do fundo.

Lula também destacou a importância de focar na democracia, que, segundo ele, voltou a estar ameaçada no mundo todo. O presidente citou o Brasil como exemplo, destacando que houve o planejamento de uma tentativa de golpe.

Em nossa região, não é diferente. No Brasil, os extremistas planejaram um golpe de Estado. Redes de desinformação continuam desvirtuando o debate público e tentando enfraquecer a confiança nas instituições. Apesar das tentativas de semear dúvidas sobre a integridade dos processos eleitorais na América do Sul, o respeito à vontade popular e a confiança nas regras democráticas têm prevalecido.

Eleições presidenciais

Ao final de sua fala, o presidente largou o discurso planejado e falou sobre sua participação nas eleições presidenciais de 2026. Lula destacou vitórias de sua trajetória, além de afirmar que, quando assumiu seu atual mandato, em 2022, o Brasil estava abaixo em vários índices econômicos e de qualidade de vida quando comparado com o momento em que terminou seu segundo governo, em 2011. 

Para Lula, sua reeleição é necessária para que o Brasil continue sendo um país democrático, referindo-se à possibilidade de que outro candidato vença a disputa, mas sem citar o nome de seu principal adversário na corrida para ocupar o cargo de presidente, Flávio Bolsonaro (PL).

Eu vou concorrer às eleições para poder garantir que o Brasil mantenha-se como um país democrático, porque não é possível a gente imaginar irresponsáveis governando um país de 215 milhões de habitantes.