Na gravidez, o cigarro pode comprometer a placenta, o órgão que mantém o bebê vivo
Quando uma gestante fuma, a maioria das pessoas pensa imediatamente no bebê. Mas existe um personagem fundamental nessa história que quase nunca recebe atenção: a placenta.
É ela quem funciona como uma verdadeira central de abastecimento da gravidez. Por meio da placenta, o bebê recebe oxigênio, nutrientes, hormônios e anticorpos essenciais para crescer e se desenvolver. Ao mesmo tempo, ela elimina substâncias que precisam ser removidas da circulação fetal.
Por isso, quando o cigarro compromete a placenta, toda a gestação pode ser afetada. Hoje sabemos que esse processo começa muito antes de aparecer qualquer alteração no ultrassom.
A placenta é a primeira vítima do cigarro
A fumaça do cigarro contém milhares de substâncias químicas. Entre elas, duas têm papel especialmente importante durante a gravidez: a nicotina e o monóxido de carbono. A nicotina provoca contração dos vasos sanguíneos, reduzindo o fluxo de sangue que chega à placenta. Já o monóxido de carbono ocupa o lugar do oxigênio na hemoglobina, diminuindo a quantidade de oxigênio disponível para o bebê.
Na prática, é como se a placenta passasse a trabalhar com menos combustível e menor capacidade de abastecimento. Com o passar do tempo, essa redução da circulação pode comprometer o crescimento fetal e aumentar o risco de diferentes complicações obstétricas.
Entre elas estão a restrição de crescimento do bebê, o descolamento prematuro da placenta, a ruptura prematura das membranas, o parto prematuro e, em situações mais graves, a perda gestacional.
Não existe quantidade segura
Uma dúvida frequente é se fumar apenas um ou dois cigarros por dia reduziria esses riscos.
A resposta é não.
Até o momento, não existe um nível considerado seguro de exposição ao cigarro durante a gestação. Mesmo pequenas quantidades mantêm o organismo da gestante em contato com substâncias que comprometem a circulação placentária e aumentam a chance de complicações.
O mesmo vale para o tabagismo passivo. Conviver diariamente com pessoas que fumam em ambientes fechados também expõe mãe e bebê a componentes tóxicos da fumaça, motivo pelo qual toda a família deve participar dos cuidados para manter um ambiente livre do cigarro.
Nunca é tarde para parar
Uma boa notícia é que interromper o tabagismo traz benefícios em qualquer fase da gravidez.
Quanto mais cedo isso acontece, maiores são as chances de reduzir os riscos para a gestação. Mas mesmo mulheres que conseguem abandonar o cigarro semanas ou meses após descobrir a gravidez ainda oferecem melhores condições para o desenvolvimento do bebê do que aquelas que continuam fumando até o parto.
Por isso, abandonar o cigarro nunca deve ser encarado como uma decisão tardia. Sempre vale a pena.
Cuidar da placenta é cuidar do bebê
Nos últimos anos, a medicina passou a compreender cada vez melhor o papel da placenta na saúde da mãe e do filho. Ela deixou de ser vista apenas como um órgão de passagem e passou a ser reconhecida como um dos principais reguladores da gestação.
Tudo o que compromete sua função pode repercutir diretamente sobre o crescimento fetal, a duração da gravidez e até a saúde da criança após o nascimento. No Dia Nacional de Combate ao Fumo, vale lembrar que proteger a gestação não significa apenas evitar danos ao bebê. Significa preservar a placenta, um órgão extraordinário que trabalha silenciosamente durante nove meses para manter uma nova vida em desenvolvimento.
Parar de fumar continua sendo uma das atitudes mais importantes que uma gestante pode tomar para oferecer ao filho o melhor ambiente possível desde o início da vida.
Dra. Ana Horovitz – CRM/SP 111739 | RQE 130806
Ginecologista
Membro da Brazil Health
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