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Cristiano Vilela

O debate ainda vale a pena

Mesmo em tempos de polarização, os debates permanecem necessários

Cristiano Vilela

Debate da Band entre Flávio Bolsonaro e Lula
Debate da Band entre Flávio Bolsonaro e Lula Renato Pizzutto/Band

Os debates eleitorais continuam sendo um dos instrumentos mais importantes para a formação da vontade do eleitor. Em uma democracia, escolher um candidato não deveria ser apenas um ato de identificação ideológica ou de rejeição ao adversário, mas também uma decisão baseada na capacidade de apresentar propostas, defender ideias e responder por suas escolhas. O confronto público permite comparar trajetórias, avaliar argumentos e, sobretudo, identificar contradições que a propaganda eleitoral e a comunicação cuidadosamente controlada das campanhas nem sempre revelam. Por isso, mesmo em tempos de polarização, os debates permanecem necessários.

O debate entre Lula e Flávio Bolsonaro, realizado no último domingo, foi, sob muitos aspectos, lamentável. Em vez de um confronto de ideias à altura dos desafios brasileiros, prevaleceram acusações, provocações e tentativas de desqualificação recíproca. O espetáculo oferecido ao eleitor esteve muito aquém do que se espera de candidatos que pretendem conduzir os destinos do país. Seria um erro, contudo, concluir que episódios como esse demonstram a inutilidade dos debates. Ao contrário: a pobreza do confronto revela o quanto precisamos recuperar esse espaço de discussão pública, no qual os candidatos deveriam estar sujeitos ao escrutínio dos cidadãos.

Há, inclusive, uma dimensão particularmente frustrante nesse episódio. As fragilidades expostas pelos dois candidatos, se tivessem sido evidenciadas em debates durante o primeiro turno, poderiam ter provocado uma reflexão mais profunda do eleitor e até influenciado sua decisão de voto. Questionamentos sobre preparo, coerência, capacidade de argumentação e disposição para enfrentar temas difíceis são elementos relevantes para qualquer escolha eleitoral. Lamentavelmente, a ausência dos dois principais candidatos nos debates do primeiro turno impediu que uma parcela do eleitorado tivesse acesso, em tempo oportuno, a esse confronto. Quando os candidatos evitam se expor justamente no momento em que o eleitor precisa compará-los, a democracia perde uma oportunidade de qualificar a escolha popular.

Essa dificuldade de dialogar, porém, não se limita às campanhas eleitorais. O Brasil parece ter perdido, progressivamente, a capacidade de reconhecer no adversário alguém com quem seja possível divergir sem transformar toda discordância em hostilidade. Parte dessa deterioração decorre da descrença provocada por sucessivos escândalos, promessas não cumpridas e pela percepção de que a política frequentemente se distancia dos problemas concretos da população. Soma-se a isso a lógica do “quanto pior, melhor”, explorada por lideranças neopopulistas que encontram vantagens eleitorais na ampliação dos conflitos, na deslegitimação das instituições e na manutenção de uma sociedade permanentemente dividida. Nesse ambiente, o diálogo deixa de ser uma virtude democrática e passa a ser tratado, equivocadamente, como sinal de fraqueza.

É justamente por isso que os debates eleitorais ainda valem a pena. Não porque sejam capazes de resolver, sozinhos, a crise de representação ou de transformar candidatos em estadistas, mas porque preservam a possibilidade de cobrar explicações, confrontar ideias e exigir um mínimo de responsabilidade pública. A democracia não pressupõe a ausência de conflitos, mas a capacidade de enfrentá-los por meio de argumentos, regras e respeito ao eleitor. Se até mesmo os debates têm sido incapazes de cumprir plenamente essa função, a resposta não deve ser abandoná-los, mas exigir que sejam melhores. Afinal, quando a política deixa de dialogar, quem perde não é apenas o candidato que se expressa mal ou o eleitor que se decepciona: é o próprio país, que abre mão de decidir seu futuro com mais informação, consciência e responsabilidade.

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