‘You Can See Everything’: tudo sobre o polêmico documentário de Elizabeth Holmes
Elizabeth Holmes voltou ao centro das atenções, mas desta vez não por causa de um novo capítulo do escândalo Theranos. A empresária é o foco de “You Can See Everything”, novo documentário dirigido por Nathan Fielder e Lance Oppenheim que promete revelar um lado ainda mais desconcertante da mulher que protagonizou um dos maiores escândalos do Vale do Silício.
Mantido em segredo durante três anos, o projeto foi apresentado de surpresa no Festival de Telluride, em setembro de 2026, e rapidamente chamou atenção por sua proposta incomum. O filme acompanha Holmes nos momentos que antecederam sua prisão e transforma sua tentativa de controlar a própria narrativa em um dos elementos centrais da produção.
Quem é Elizabeth Holmes?
Elizabeth Holmes ficou mundialmente conhecida como a fundadora da Theranos, empresa de tecnologia médica que prometia revolucionar os exames de sangue.
Aos 19 anos, Holmes abandonou a Universidade Stanford para criar a companhia. Sua grande promessa era desenvolver uma tecnologia capaz de realizar centenas de exames utilizando apenas algumas gotas de sangue retiradas do dedo.
A ideia parecia revolucionária e fez Holmes conquistar investidores poderosos, além de transformar seu nome em um símbolo do empreendedorismo no Vale do Silício. Durante anos, ela foi tratada como uma espécie de novo gênio da tecnologia e chegou a construir uma imagem pública cuidadosamente controlada.
O problema veio quando investigações começaram a mostrar que a tecnologia da Theranos não funcionava da maneira apresentada.
A empresa teria enganado investidores sobre as reais capacidades de seus equipamentos, enquanto pacientes chegaram a receber resultados incorretos de exames. O escândalo levou ao fim da Theranos e à queda completa de Holmes.
Em 2022, ela foi condenada por crimes relacionados à fraude contra investidores e recebeu uma pena de prisão federal. Holmes começou a cumprir a sentença em 2023.
O que o documentário mostra?
“You Can See Everything” começa pouco antes da prisão de Holmes. Segundo a proposta oficial, 34 dias antes de ser enviada para a prisão, ela convida uma equipe de filmagem para acompanhar sua rotina.
O que inicialmente parece ser um retrato íntimo da empresária rapidamente ganha contornos muito mais estranhos.
Os diretores passam a acompanhar Holmes dentro de casa, ao lado do marido, Billy Evans, e dos filhos. A câmera registra conversas, momentos familiares e situações extremamente pessoais, criando uma proximidade pouco comum para um documentário sobre uma figura tão controversa.
Mas o projeto não termina quando Holmes vai para a prisão.
A equipe continua acompanhando a história durante três anos, transformando o filme em uma investigação sobre a personalidade da empresária, sua relação com a própria imagem e a maneira como ela tenta reconstruir sua narrativa.
Quem são os diretores?
Nathan Fielder é conhecido por trabalhos que brincam justamente com a fronteira entre realidade e ficção.
O cineasta ficou famoso por “Nathan for You” e posteriormente por “The Rehearsal”, produções que misturam situações reais, improvisação, encenação e um humor extremamente desconfortável.
Essa experiência faz de Fielder uma escolha bastante peculiar para acompanhar Elizabeth Holmes. Afinal, boa parte da história da empresária envolve justamente a construção de uma persona pública e a dificuldade de separar quem ela realmente é da imagem que criou.
Já Lance Oppenheim é conhecido pelo trabalho em documentários que mergulham profundamente na intimidade de seus personagens. Seus filmes costumam observar pessoas e comunidades de maneira bastante próxima, muitas vezes encontrando situações absurdas ou inesperadas em ambientes aparentemente comuns.
A combinação dos dois diretores transforma “You Can See Everything” em algo muito diferente de um documentário tradicional sobre um escândalo empresarial.
Por que o filme é tão polêmico?
A principal questão está justamente no acesso concedido por Holmes.
Ela participou diretamente do projeto e permitiu que os cineastas entrassem em sua vida pessoal em um momento extremamente delicado. Em vez de simplesmente contar novamente a história da Theranos por meio de jornalistas, ex-funcionários e especialistas, o filme coloca a própria Holmes no centro da narrativa.
E existe uma pergunta que parece perseguir toda a produção: quando Elizabeth Holmes está sendo sincera?
O documentário brinca constantemente com essa dúvida.
Em um dos momentos que mais chamaram atenção no teaser, Fielder questiona Holmes sobre sua autenticidade. A resposta dela apenas aumenta o desconforto e deixa no ar a sensação de que a empresária pode estar novamente tentando controlar a maneira como o público a enxerga.
É justamente aí que o passado de Holmes torna tudo ainda mais complicado.
Ela construiu sua carreira vendendo uma visão extremamente convincente de uma tecnologia que acabou não correspondendo às promessas feitas. Agora, anos depois, está novamente diante de câmeras tentando contar sua própria história.
A diferença é que desta vez existe um cineasta como Nathan Fielder observando cada movimento.
Realidade ou performance?
O mais curioso é que o próprio documentário parece não oferecer uma resposta simples sobre Holmes.
A produção mistura observação documental, entrevistas e elementos de encenação, criando uma atmosfera que faz o espectador questionar constantemente aquilo que está vendo.
Em determinado momento, a sensação é de que Holmes está sendo entrevistada. Em outro, parece que a própria presença das câmeras virou uma espécie de jogo psicológico.
O filme ainda conta com uma participação surpresa de uma conhecida atriz de Hollywood interpretando Holmes em determinadas cenas, aumentando ainda mais a confusão entre realidade e performance.
Essa escolha combina perfeitamente com a proposta de Fielder: colocar o público em uma situação na qual já não é tão fácil saber onde termina o documentário e começa a encenação.
A história de Holmes já foi contada antes
O caso Theranos já inspirou outras produções.
Em 2019, o documentário “The Inventor: Out for Blood in Silicon Valley” investigou a ascensão e a queda da empresa. Em 2022, a história ganhou uma versão dramatizada na minissérie “The Dropout”, estrelada por Amanda Seyfried no papel de Holmes.
“You Can See Everything”, porém, tem um diferencial importante: desta vez, Elizabeth Holmes participa diretamente da história.
E isso muda completamente a perspectiva.
Não se trata apenas de descobrir o que aconteceu com a Theranos. O filme parece interessado em entender quem é a mulher que conseguiu convencer investidores, funcionários e parte do público de que estava prestes a revolucionar a medicina.
Um dos documentários mais estranhos do ano
A grande polêmica de “You Can See Everything” talvez esteja justamente no fato de que ninguém parece saber exatamente o que esperar dele.
O documentário não transforma Holmes simplesmente em vítima, nem parece interessado em apresentá-la apenas como vilã. Em vez disso, coloca o espectador diante de uma personagem extremamente difícil de decifrar.
E existe uma ironia quase perfeita nisso.
Elizabeth Holmes passou anos construindo uma narrativa sobre a própria genialidade. Agora, depois de sua condenação e prisão, ela volta diante das câmeras para tentar contar sua versão dos acontecimentos.
Só que, desta vez, quem controla a narrativa são os cineastas.
E talvez essa seja a parte mais perturbadora de “You Can See Everything”: depois de tudo o que aconteceu, ainda não é possível saber se estamos finalmente vendo Elizabeth Holmes como ela realmente é ou apenas mais uma versão cuidadosamente construída da personagem que ela criou.
O filme terá distribuição da A24 e está previsto para chegar aos cinemas em outubro de 2026.
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