DF volta a ter o pior desempenho no combate à Covid-19, segundo CLP

Goiás, Tocantins, Rio de Janeiro e Mato Grosso completam a lista dos cinco estados com pior atuação no combate à doença no país

  • Por Jovem Pan
  • 28/08/2020 14h20 - Atualizado em 28/08/2020 14h37
LINCON ZARBIETTI/AGIF - AGÊNCIA DE FOTOGRAFIA/ESTADÃO CONTEÚDODF segue como líder absoluto em número de casos por milhão de habitantes de SRAG, considerada um indício de subnotificação de Covid-19.

Entre as 27 unidades da federação, o Distrito Federal assumiu, mais uma vez, a liderança no Ranking Covid-19 dos Estados, com a pior atuação no enfrentamento ao novo coronavírus. O levantamento feito pela organização CLP – Liderança Pública analisa e compara a atuação dos estados em relação às ações frente à pandemia, classificando-os conforme o desempenho mais ou menos favorável. Logo atrás do DF, Goiás, Tocantins, Rio de Janeiro e Mato Grosso completam a lista dos cinco piores quadros no que se refere ao combate à doença no país. Ao contrário destes, o Espírito Santo, considerado 100% transparente nos dados relacionados à pandemia, passou o Maranhão e agora é o estado com melhor desempenho. Na sequência aparecem Amazonas, Bahia e Rio Grande do Norte, completando a lista dos cinco estados com melhor atuação. No ranking, quanto maior a nota, pior é a avaliação.

A maioria dos indicadores do Distrito Federal se agravou em relação há 14 dias, sem contar a prisão do secretário de Saúde preso nesta semana e a fila de espera por leitos de UTI. O DF subiu da terceira para a segunda posição entre os entes com o maior número de casos de Covid-19 por milhão de habitantes em relação há duas semanas. O avanço de infectados foi de 21%, acima da média brasileira no período (17%). Mesmo assim, o isolamento social diminuiu. Já a taxa de mortalidade recuou de 1,81% para 1,53%, seguindo a tendência nacional (3,59% para 2,78%). Outro indicador que pesa negativamente na avaliação do Distrito Federal é o de casos por milhão de habitantes de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), considerada um indício de subnotificação de Covid-19, em que segue como líder absoluto. Isso ocorre mesmo depois da atualização da metodologia do ranking nesta semana, feita para capturar melhor as políticas dos estados no atual estágio da pandemia no Brasil e também para fazer pequenos ajustes nos indicadores considerados.

DF segue no topo do ranking, mesmo com ajustes na metodologia

Preocupados principalmente com a sazonalidade de SRAG no DF, por conta do tempo seco e frio desta época do ano, o CLP passou a fazer um ajuste comparando com a mesma semana de 2019. Caso determinado estado tenha ficado acima da média nacional nesse período no ano passado, os números deste ano sofrem um ajuste para abater essa sazonalidade. Além disso, os casos de SRAG agora são contabilizados pelo CLP pela média móvel de quatro semanas. Cabe lembrar que os dados de SRAG considerados pelo ranking já excluem os casos comprovadamente provocados pela Covid-19. Essa nova metodologia reduziu em cerca de 100 casos por milhão de habitantes (pmh) os números de SRAG do DF, agora em 211,93. Mesmo assim, segue no topo da lista, com diferença de mais de 100 casos por milhão (pmh) do segundo colocado, o Alagoas (107,09). “A posição do DF no ranking está muito justa”, destaca o Head de Competitividade do CLP, José Henrique Nascimento.

O CLP também deixou de considerar o nível de isolamento social como critério para avaliação do ranking, a partir desta semana. Somente a variação entre as semanas consideradas foi mantida. Mesmo assim, só será penalizado pela redução do isolamento o estado que, no mesmo período, tiver crescimento de mais de 3% dos casos de Covid-19 e variação positiva para SRAG. Foi o que aconteceu com 11 deles: Distrito Federal, Acre, Amapá, Goiás, Mato Grosso, Paraíba, Piauí, Rio Grande do Sul, Rondônia, Santa Catarina e Tocantins. A principal mudança, contudo, foi o rebalanceamento dos pesos entre os oito indicadores, dando maior relevância para os dados que apontam a tendência da situação da pandemia em cada localidade.

Dessa forma, foi possível enxergar a piora de Tocantins, diz Nascimento, que passou de 18º para 3º nas últimas duas semanas. Um terço das mortes por coronavírus no estado ocorreu em agosto. No dia 31 de julho, havia 381 óbitos, número que pulou para 482 em 12 de agosto, data do último ranking, e ultrapassou 600 nesta semana. “Houve 100 mortes em um espaço de 12 dias e o estado se manteve na 18ª posição, porque estávamos dando mais peso ao nível do que à tendência. A mudança metodológica nos permitiu ter esse olhar e penalizar aquilo que não está sendo feito. Se o estado teve mais de 1/3 das mortes em agosto o que vou fazer para que isso pare?”

Em contrapartida, também foi possível identificar mais rapidamente a melhora de Santa Catarina, após o surto há cerca de um mês. Destacado como caso de sucesso na adoção de medidas duras e céleres para frear o contágio pelo vírus, como a suspensão de transporte público, o estado deixou o incômodo Top 10 de quadros mais desfavoráveis no combate à doença e agora ocupa a 16º. Embora a evolução dos casos (em escala logarítmica) ainda esteja aumentando e o isolamento tenha diminuído em relação a 15 dias atrás, o ritmo de crescimento de infectados voltou a se equiparar com a média nacional, de quase o dobro há um mês.

Para Nascimento, levando-se em consideração o contexto do Brasil, não há outra alternativa de controle de contágio a não ser as ações voltadas à promoção do isolamento social. Isto porque, ainda segundo ele, o Brasil não tem capacidade financeira e operacional para fazer um amplo programa de testagem e rastreamento de infectados. “Não estamos mais considerando o nível de isolamento, só a variação semanal e caso esteja crescendo a pandemia. Há outras medidas, como máscara, higienização, mas tudo isso não é suficiente se houver reabertura total da economia, caso não esteja fazendo uma restrição mínima, como Santa Catarina fez”, diz o Head de Inteligência Técnica do CLP, Daniel Duque.

O alerta nesta semana vai para o Rio de Janeiro, estado bastante atingindo no início da pandemia e que voltou a apresentar aumento no número de mortes do dia 17 ao dia 24 de agosto, segundo estudo da Fiocruz. No ranking, passou de 11º para 4º desde a última divulgação, lembrando que nunca abandonou a liderança do país em letalidade, agora em 7,29%. “Basicamente, a reabertura foi desorganizada. A dúvida é se é uma segunda onda ou só um repique, mas fato é que a situação está mais preocupante agora”, destaca Duque.

O que dizem os Estados

Sobre o pior desempenho do país no enfrentamento à Covid-19, a secretaria de Saúde do Distrito Federal disse apenas que divulga regularmente os dados sobre a pandemia. Em nota, a secretaria de Estado de Goiás, disse que é preciso considerar os diferentes estágios da pandemia no Brasil. “O isolamento há muito tempo não é mais objeto de adesão da população, de forma que os princípios da gestão pautados somente nesse indicador são insuficientes para se obter resultados satisfatórios. O que é importante avaliar, independentemente do momento da pandemia, é se houve algum tipo de desassistência de saúde da população. Assim, em nenhum momento o estado de Goiás deixou de prestar assistência aos cidadãos, evitando o colapso do sistema de saúde.”

O governador do Espírito Santo, Renato Casagrande, credita o bom desempenho no combate à pandemia à análise minuciosa da situação de todos os municípios do estado, classificando-os em três faixas de risco, de baixo a extremo, considerando o número de infectados, óbitos, porcentual de pessoas com mais de 60 anos e de isolamento. Dessa forma, foi possível ajustar o nível de isolamento social, de liberdade a fechamento total da economia e outras medidas em cada localidade. Na próxima segunda-feira, passada a pior fase da doença e com o objetivo de reduzir as mortes, a matriz será atualizada e passará a considerar número de casos ativos, a média móvel de 14 dias de óbitos e o número de testes por mil habitantes.

O chefe de gabinete da Secretaria Extraordinária de Covid-19 do Rio de Janeiro, Danilo Klein, afirma que o estado não considera adequada a contabilização dos dados de casos e mortes por coronavírus no dia da divulgação, mas sim no data do aparecimento dos sintomas, para número de infectados, e da ocorrência do óbito, para casos fatais. E argumenta que, com a ampliação de critério do Ministério da Saúde para o diagnóstico da doença, que passou a aceitar exames de imagem e testagens rápidas, casos e mortes represados há dois meses foram computados como atuais. Segundo a secretaria de Saúde, houve redução de 85% das mortes entre o pico da pandemia, em maio, e as duas primeiras semanas deste mês. Para a análise, o Rio de Janeiro desconsidera a semana atual e a anterior, por estarem sujeitas à revisão.

O secretário de Saúde de Santa Catarina disse, por meio de nota, que o compartilhamento das decisões com os governos locais foi fundamental para adotar as melhores estratégias no combate à doença. Os outros estados citados não responderam aos contatos da reportagem.

* Com Estadão Conteúdo