Brasil deve crescer ao menos 3% em 2021 mesmo com ‘risco Bolsonaro’, diz Maílson da Nóbrega

Retomada da economia no último semestre de 2020 dá margem para avanços após queda histórica; ex-ministro da Fazenda ainda afirma que presidente deve defender reformas e assumir papel de coordenação no governo

  • Por Gabriel Bosa
  • 03/03/2021 09h32
Jefferson Ruddy/Agência Senado Maílson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda, afirma que vacinação contra a Covid-19 é fundamental para a retomada completa da economia em 2021

O novo fôlego à economia brasileira com o avanço de 3,2% do Produto Interno Bruto (PIB) no último trimestre de 2020 dá condições para o país crescer ao menos 3% neste ano, afirma Maílson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda e sócio da Tendência Consultoria Integrada. O cenário de retomada após tombo de 4,1% em 2020 é ameaçado apenas pelo “risco Bolsonaro”, ou seja, a capacidade do inquilino do Palácio da Alvorada em gerar crises desnecessárias que diminuem a tração para a recuperação da economia. “Em 2021, praticamente está assegurado um crescimento na ordem de 3%, a menos que um evento inesperado mude radicalmente as expectativas dos agentes econômicos. No Brasil, seria um evento político. O presidente da República é um político imprevisível”, afirmou o economista à Jovem Pan. Nos últimos dias, não faltaram exemplos de como o temperamento intempestivo do chefe do Executivo tem potencial para abrir novas frentes de instabilidade. Na pauta econômica, a intervenção no comando da Petrobras fez a petroleira perder dezenas de bilhões de reais em algumas horas após a fuga de investidores. Já a polêmica condução do país em meio à pandemia do novo coronavírus voltou a ser motivo de apreensão. Enquanto o Brasil atravessa o pior momento desde o início da crise sanitária, Bolsonaro retomou as criticas aos governadores e prefeitos que adotaram medidas mais severa de isolamento social. “É um homem que está sempre no confronto e na criação de crises. Em uma dessas, pode se ter uma perda rápida e grave na confiança da economia brasileira”, diz Nóbrega.

A recuperação de ao menos 3% do PIB neste ano é reflexo do carrego estatístico, que é o impulso que a economia recebe após um período de grave queda. Neste caso, o carrego estatístico será o reflexo da recuperação econômica a partir do terceiro trimestre de 2020, quando o PIB bateu alta de 7,7%. O repique registrado entre outubro e dezembro do ano passado, no entanto, não terá força para se sustentar na primeira metade de 2021. A análise do ex-ministro é de que a economia permanecerá estagnada por uma série de motivos, como o hiato na distribuição do auxílio emergencial, a desvalorização do câmbio e os picos de inflação. A vacina contra a Covid-19, contudo, é o fator fundamental, e a retomada não será concretizada até o avanço significativo da imunização, esperado apenas para o segundo semestre. “Por ora, a recuperação está sendo heterogênea, com varejo e indústria em níveis superiores ao início da pandemia, e serviços caindo 4%. O serviço é um setor que depende muito da interligação pessoal, do comparecimento aos locais. Tudo isso volta a ser fonte de demanda com as vacinas”, afirma.

O avanço da agenda do ministro da Economia, Paulo Guedes, também é apontado como direção para a saída do buraco em que o país se meteu. Para Maílson da Nóbrega, a reforma tributária nos moldes da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 45, de autoria dos deputados, é a mais completa por substituir cinco tributos da União, Estados e municípios pelo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS). Os trâmites, no entanto, devem ficar em segundo plano até que o Congresso defina a PEC Emergencial e a retomada do auxílio para os mais vulneráveis. As eleições de Arthur Lira (PP-AL) para a presidência da Câmara e Rodrigo Pacheco (DEM-MG) para o Senado, ambos com o apoio de Bolsonaro, criam clima positivo para debates e aprovações de medidas importantes. No entanto, os ventos favoráveis, mais uma vez, podem esbarrar na personalidade beligerante de Bolsonaro. “O papel dele deve ser o de coordenador do jogo político, de lutar por sua agenda de reformas, conversar com parlamentares e mobilizar os seus líderes”, afirma. “Se o presidente mantiver essa postura, vai continuar nessa mediocridade, aqui ou acolá passa uma reforma, e o Brasil vai ficando para trás. O país não vai ficar pobre da noite para o dia nem vai parar de crescer, mas vai crescer menos do que deveria”, diz o economista.