Lula diz que foi pego de surpresa com novas tarifas de Trump: ‘Brasil não pode aceitar’

Durante reunião ministerial, presidente afirmou que não houve comunicado oficial e, sem citar Flávio Bolsonaro (PL), criticou apoio de opositores brasileiros às medidas dos EUA

  • Por Jovem Pan
  • 03/06/2026 11h54 - Atualizado em 03/06/2026 12h33
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Reprodução / Governo Federal Presidente Lula (PT) durante reunião ministerial nesta quarta-feira (3) Presidente Lula (PT) durante reunião ministerial nesta quarta-feira (3)

O presidente Lula (PT) afirmou, nesta quarta-feira (3), que foi pego de surpresa pelo anúncio de novas tarifas comerciais aplicadas pelo governo dos Estados Unidos a produtos brasileiros. Durante a abertura de uma reunião ministerial no Palácio do Planalto, Lula declarou que o país não recebeu comunicado oficial sobre as medidas e ressaltou que “o Brasil não pode aceitar” o tratamento da gestão de Donald Trump.

De acordo com o presidente, a decisão americana ocorre em meio a negociações que ainda estavam em andamento. Lula relembrou o encontro de três horas que teve com Trump em maio, no qual teria proposto um prazo de 30 dias para que os ministros de ambos os países chegassem a um consenso sobre divergências comerciais. Segundo o petista, esse prazo ainda não expirou.

“Não se concluiu nada. Por isso, a nossa surpresa com a decisão de mais um comunicado, de mais uma taxação com relação ao Brasil”, disse Lula. O presidente reforçou que o país se manteve aberto ao diálogo: “Ninguém pode dizer que o Brasil se negou a negociar com os Estados Unidos”.

As medidas anunciadas por Washington incluem duas frentes de taxação. A primeira, divulgada na segunda-feira (1º), prevê uma tarifa de 25% baseada em uma investigação que acusa o Brasil de práticas que restringem o comércio bilateral. A segunda, anunciada nesta quarta-feira (3), adiciona 12,5% sob a justificativa de falhas na fiscalização de mercadorias produzidas com trabalho forçado. Com isso, a sobretaxa total pode chegar a 37,5%.

Entrega de documentos e cartas

Lula afirmou que entregou pessoalmente a Trump quatro documentos sobre a relação bilateral, abrangendo temas como combate a facções criminosas e exploração de terras raras.

“Eu saí de lá convencido de que a gente estava estabelecendo uma nova lógica no relacionamento democrático e civilizado entre Brasil e Estados Unidos. E confesso a vocês que fui pego de surpresa”, reiterou.

O governo brasileiro agora estuda a reposta à proposta de taxação. Lula informou que pretende enviar uma nova carta a Trump e que está disposto a escrever artigos na imprensa internacional para contestar as decisões.

“Eu ainda vou mandar outra carta ao presidente Trump. Vou escrever quantos artigos forem necessários escrever na imprensa americana e na imprensa mundial, para mostrar que eles estão errados, que eles estão equivocados, e que eles estão induzindo o mundo a uma violência desnecessária”, afirmou.

‘Traição da pátria’

Sem citar Flávio Bolsonaro (PL), Lula criticou brasileiros que, segundo ele, estariam incentivando as sanções americanas para obter vantagens eleitorais. O presidente classificou essa atitude como “traição da pátria”.

“O que um imbecil desses não percebe é que quem é prejudicado é o povo, não o Lula”, disse o presidente. Ele argumentou que pedir a punição econômica do próprio país na tentativa de derrotar um adversário político é uma prática injustificável. “Não há disputa eleitoral em qualquer país do mundo que possa dar valor a alguém que trai a pátria”, completou.

As críticas ocorrem na semana posterior ao encontro entre Flávio Bolsonaro e Trump, em Washington. O filho do ex-presidente Jair Bolsonaro também se encontrou com Marco Rubio e com o vice-presidente dos EUA, JD Vance.

Críticas a Marco Rubio

Ainda durante o discurso, Lula também fez críticas ao secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio. O presidente chamou o chefe da diplomacia dos EUA de “latino-americano frustrado”, reagindo a uma declaração de Rubio, que afirmou que o Brasil não seria um país amigável aos interesses de Washington.

Lula mencionou o contexto histórico das relações entre os dois países, citando o apoio dos EUA ao golpe militar de 1964. Ele enfatizou que o Brasil busca uma relação institucional baseada na verdade e na paz.

“Nós somos muito grandes, temos muita história. É importante que eles saibam que nós conhecemos a história e que não queremos guerra”, declarou.

O petista defendeu que a diplomacia brasileira deve manter a dignidade nacional diante de pressões externas. Para o presidente, o tratamento atual ignora o esforço de aproximação feito nos últimos meses e a construção de uma narrativa de cooperação que dura mais de dois séculos.

Lula encerrou a fala reafirmando que o foco do governo será proteger a economia nacional e a população atingida pelas tarifas.

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