Defesa de Bolsonaro nega que ele tenha autorizado vídeo de IA
A defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro negou que o capitão da reserva tenha autorizado a produção de um vídeo de IA com a sua voz e imagem. O posicionamento, realizado nesta quarta-feira (29), foi em resposta ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes. Um dos advogados já havia negado a autorização na terça-feira (28).
O ministro havia dado 48 horas para que a defesa se manifestasse sobre o vídeo, que foi utilizado no evento do PL que lançou oficialmente a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência.
Na prática, a decisão colocou o ex-presidente diante de dois caminhos: admitir que autorizou o material — hipótese que, segundo o próprio Moraes, pode configurar novo descumprimento das medidas cautelares e até levar à reversão da prisão domiciliar — ou negar a autorização, abrindo espaço para que Flávio Bolsonaro e o PL sejam investigados por eventual uso ilegal de “deep fake” com finalidade eleitoral.
Segundo o documento enviado ao STF. Bolsonaro nem poderia autorizar a publicação por estar proibido de receber visitas por 30 dias e de ver Flávio Bolsonaro por 90 dias, o que evidenciaria a inexistência de qualquer contato para conseguir a autorização.
O texto também afirma que os filhos de Bolsonaro sempre utilizaram a imagem dele para fins político-partidários, e que isso nunca teria sido um problema antes.
Essa circunstância decorre da natural relação de confiança existente entre pai e filhos e da própria natureza pública da imagem do PeticionárioDefesa de Bolsonaro
Pedido de Moraes
Na decisão em que pediu explicações, Moraes lembra que a medida cautelar imposta ao ex-presidente proibiu a divulgação de manifestos político-eleitorais, “inclusive por terceiros, independentemente do meio utilizado”.
O ministro afirma que, caso fique comprovada a autorização de Bolsonaro, a divulgação do vídeo representaria uma “nova e grave transgressão” à decisão judicial, poucos dias após a concessão da prisão domiciliar humanitária, podendo inclusive justificar o retorno ao regime fechado.
Por outro lado, o ministro afirma que, se não houve autorização do ex-presidente, a utilização de sua imagem e voz para declarações político-eleitorais poderá caracterizar a prática de “deep fake”, vedada pela legislação eleitoral. Nesse cenário, a conduta poderá ser atribuída a Flávio Bolsonaro e ao Partido Liberal (PL).
Moraes cita ainda entendimento recente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), segundo o qual o uso de conteúdo sintético produzido por inteligência artificial para favorecer candidaturas configura irregularidade objetiva, independentemente da demonstração de que houve indução do eleitor em erro.
O ministro também menciona a Resolução nº 23.757/2026, que prevê que o uso irregular de inteligência artificial em campanhas pode caracterizar uso indevido dos meios de comunicação social e, conforme o caso, abuso de poder político e econômico.
A decisão foi tomada após manifestação apresentada pelo PT, que sustentou que o vídeo exibido durante a convenção do PL violou a decisão que proíbe Bolsonaro de divulgar manifestações político-eleitorais.
No despacho, Moraes afirmou ser necessária a definição sobre a existência ou não do consentimento do ex-presidente para verificar se houve novo descumprimento das medidas cautelares impostas a Bolsonaro ou eventual desrespeito à legislação eleitoral por Flávio Bolsonaro e pelo PL. Ao final, determinou a intimação da defesa e deu ciência do caso à Procuradoria-Geral da República (PGR).