Supermercado, supersaco (e não é de plástico)
Tem gente que não gosta de avião. Tem gente que odeia academia (muitos). E tem gente que não suporta fazer supermercado (eu). Mas não é só uma questão de gosto. O lance é que, pra mim, fazer compras do mês (ou da semana) é um desafio maior do que limpar grelha.
Tem gente que diz amar supermercado. Eu disse a-m-a-r. Minha avó é uma delas. Meu melhor amigo, outro exemplar. Minha mãe às vezes reclama, mas peregrina por 4 supermercados diferentes toda semana. Desculpa, isso é amor recalcado.
Mês passado, eu viajei para os Estados Unidos. Aluguei um flat no Airbnb, afinal, comer em casa fica muito mais barato. Só esqueci de um detalhe: para isso, é necessário providenciar essa comida. Encarar o supermaket num país estrangeiro faz uma ida ao Pão de Açúcar parecer brincadeira de criança (com direito a carrinho de plástico). Por exemplo, você vai comprar um iogurtinho de morango. Nada mais básico do que um danone rosa. Você tem algumas opções: sem lactose, sem glúten, rico em proteína, com probióticos, vegano ou com leite de aveia, castanha, coco ou amêndoas, além do sem açúcar, mas esse é raríssimo por lá. Veja, eu falo inglês. Mas entender aqueles ingredientes é difícil até pros americanos.
Mas não é só fora do Brasil que fazer supermercado é complicado pra mim. Eu já entro no estabelecimento culpada, já que, invariavelmente, alguém vai dizer que eu fui ao supermercado mais caro (queria saber qual é o barato). Você até pode ir a um mercadão/atacadão, mas fique sabendo que só vai ter macarrão Adria.
Para uma pessoa como eu, supermercado é um labirinto, um buraco negro ou um vórtex do espaço-tempo (seja lá o que isso for). Só sei que, quando eu entro, não consigo mais sair.
Para facilitar, tem a lista de compras. Aceita que dói menos: vira e mexe vamos esquecer de pegar alguma coisa. Sabe quando você chega em casa e percebe que acabou o alho? Dá um ódio. Às vezes, o item até está na minha lista, mas eu sou capaz de esquecê-lo mesmo assim.
Como não frequento supermercados, nunca sei em que corredor fica o quê. Você vai dizer: “Ah, mas tem as plaquinhas em cima”. Nem adianta, dentro de um ambiente ameaçador, quando leio “mantimentos” não me vem nada à cabeça.
Além disso, são muitas micro-decisões a serem tomadas. Às vezes, até enigmas a serem solucionados. O hortifruti é um prato cheio:
Tomate. Pego verde? Hum, se eu quiser comer amanhã, não vai dar e vou ficar com raiva. Pego o maduro? Hum, se eu não quiser comer amanhã, vai estragar e vou ficar com raiva. Pego um pouco de cada um? Hum, não vai ter suficiente nem pra amanhã nem pra depois. Imediatamente, a raiva se torna ódio.
Morango. Esse é sacanagem: tá sempre lindo por cima, horrível por baixo. Então, você tem que virar as caixinhas pra ver quais estão menos esmagados. Acredite, você não vai chegar à conclusão nenhuma. E ainda vai escorrer um caldinho vermelho no seu braço.
Banana. Primeiro que o tipo que a gente quer vai estar sempre verde. Se procura a nanica, a prata está boa. E vice-versa. A gente só precisa de meia dúzia. Só que os cachos disponíveis têm 4, 8 ou 12 bananas. Eu nunca sei se é permitido cortar o cacho ou se é antiético, então travo.
Batata. Nunca lembro se é melhor comprar as maiores ou as menores. E as mais bonitas têm sempre um olho de peixe.
Tem outras seções que exigem decisões difíceis:
Meu filho pediu Toddyinho. Putz, tem muito açúcar… Vou levar o light. Putz, e se ele não quiser tomar o light porque é light? Ou seja, são questões solúveis em leite, porém insolúveis na vida.
Se tem uma coisa que eu amo é sorvete. Só que, inevitavelmente, passamos no congelador no meio do rolê. Aí, inteligentes que somos, deixamos pra pegar por último, pra não derreter. Mas quem lembra de voltar pra resgatar o Napolitano? Sem contar que, se pegarmos trânsito, já leva o canudo, porque o sorvete vai chegar em casa em forma de milk-shake.
Eventualmente, conquisto pequenas vitórias. Tipo, descubro que, às sextas, a peixaria tem 30% de desconto. Que dia é hoje? Sexta! Promoções boas também me fazem sentir mais esperta e levantam minha autoestima.
Carrinho cheio, dia de glória. Glória?
Bora para o caixa. É claro que a fila que a gente escolhe, já que tem menos gente, demora mais. Aí é rezar pro valor não vir estratosférico. Eu não sei vocês, mas eu não tenho a menor condição de estimar isso antes. Então, posso descobrir que me dei muito bem ou muito mal. Outra dor: supermercado se paga à vista, não tem como parcelar.
Não tem nada mais penoso do que embalar compras. Depois de sofrer para abrir os saquinhos plásticos (gente, já descobrimos a cura do câncer) e, muitas vezes, pagar 10 centavos por cada um (arghhh), temos que embalar os produtos. Os que acham que são espertos descolam uma caixa, mas ficam sem saquinho pro lixo da cozinha.
Agora é só voltar as compras pro carrinho, empurrá-lo até o carro (quando não tem que pegar elevador!), tirar as sacolas e colocar no porta-malas. Não esqueça de devolver o carrinho na p.. q… p… Então dirigimos até em casa, tiramos as compras do porta-malas, damos um mau jeito nas costas, retiramos os produtos dos saquinhos, distribuímos pela cozinha (despensa, geladeira, freezer…), enrolamos os saquinhos pra colocar no puxa-saco. Ufa, pronto. Pronto?
Olho o tal do morango e penso: lavo agora ou meto na geladeira assim mesmo, tomo um Dorflex e me jogo no sofá? Aí passa um filme na cabeça: eu tirando as frutinhas da caixinha (que vai pro lixo reciclável, que é sempre longe), lavando em água corrente, colocando de molho no vinagre para matar alguma coisa que não lembro agora o que é e deixando secar ao vento para, só depois, armazenar no tupperware e botar no refrigerador. Quer saber? Quando meu filho quiser comer morango com chantili, ele que passe pelo calvário. Antes de arder na culpa materna, justifico pra mim mesma que estou dando uma lição de vida para quando ele for morar sozinho.
Aí você me pergunta: como você sobrevive sem ir ao supermercado? Simples: eu compro online. É tranquilo? Claro que não. Às vezes, passo o mesmo tempo no Rappi do que levaria pra ir ao supermercado. Razões: no Pão de Açúcar tem a bebida proteica do meu filho, mas não tem a minha granola. No Mambo, tem meu pão integral de castanha-do-pará, mas não tem o sapólio líquido. No St. Marche tem tudo, mas é caríssimo. Além disso, comprar legumes e frutas online é um tiro no escuro. Ou você acha que o entregador vai escolher a batata sem olho de peixe? Ou que o sorvete vai vir intacto dentro de um cooler? Ou seja, é um estresse do mesmo jeito.
Apesar de incluir uma dose de sofrimento, muito mais do que encher o carrinho de mantimentos, o importante é trazer para casa – e para a nossa vida – os ingredientes que vão virar uma refeição gostosa e nutritiva, para compartilhar com quem mais amamos. Se eu gosto de cozinhar? Detesto.