Fifa de Infantino distribui bilhões às vésperas da eleição
A Fifa anunciou uma proposta que, na prática, coloca nas mãos de cada uma das 211 associações-membro um adicional de US$ 15 milhões (£11,4 milhões) entre 2027 e 2030. A informação é destaque do jornal Times/Inglaterra.
Somado aos US$ 10 milhões já previstos no programa Forward 4.0, o pacote chega a US$ 25 milhões por federação no ciclo. No total, a entidade pretende distribuir mais de US$ 3,5 bilhões de suas reservas — que devem ultrapassar US$ 6 bilhões após o sucesso financeiro da Copa de 2026 nos Estados Unidos, México e Canadá — mantendo um piso mínimo de US$ 1,7 bilhão.
Do lado oficial, a justificativa é técnica e redistributiva. As reservas cresceram de forma expressiva com a Copa de 48 equipes. Parte desse dinheiro, argumenta-se, deve voltar às federações nacionais para custos operacionais, projetos específicos e, obrigatoriamente, US$ 5 milhões por associação destinados ao futebol feminino e de base.
A ideia também responde a pedidos anteriores da Uefa e da Concacaf por um pagamento único das reservas. Em tese, é uma forma de o futebol mundial se beneficiar do superávit gerado pelo maior torneio do planeta.
Do outro lado, opositores de Infantino — entre eles lideranças da Uefa e da Concacaf que chegaram a pedir sua renúncia após o plano (depois abandonado) de vender participações da Copa a investidores privados — veem o movimento de outra maneira.
Se a Fifa tem recursos suficientes para distribuir bilhões sem privatizar a Copa, o projeto de venda nunca foi necessário. Mais importante: o timing é incontestavelmente político. A proposta chega pouco antes do prazo de 18 de novembro para registro de candidaturas à presidência e da eleição de março de 2027, em Rabat.
Quem vota são exatamente os presidentes das 211 associações que receberão o dinheiro extra.É difícil, nesse contexto, evitar a leitura de que o plano “adoça” a base. A imensa maioria das federações — especialmente as menores, mais dependentes dos recursos da Fifa — tende a ser leal ou pragmaticamente alinhada ao presidente em exercício quando o fluxo de dinheiro aumenta de forma significativa e relativamente flexível.
Historicamente, aumentos nos programas de desenvolvimento da Fifa funcionaram como instrumento clássico de consolidação de apoio. Nenhum adversário com as cinco indicações necessárias surgiu até agora, e a distribuição de bilhões em um momento de tensão interna (que inclui até uma queixa criminal preparada pela Uefa na Suíça) reforça a percepção de que o objetivo principal é reduzir o espaço para qualquer contestação.
Há, claro, um argumento defensável do lado de Infantino: as reservas são elevadas e redistribuí-las é legítimo. Mas o calendário político, o valor e a estrutura do sistema de votação da Fifa tornam inevitável a conclusão de que a medida fortalece, de forma direta e previsível, a base eleitoral do atual presidente.
Em futebol institucional, dinheiro distribuído às federações às vésperas de eleição raramente é só “desenvolvimento”.
Até a próxima.