Receio de ir ao hospital pode atrasar diagnóstico de doenças graves e atrapalhar tratamento
Após muitas recomendações de autoridades nacionais e internacionais para se procurar um hospital apenas em extrema necessidade em meio à pandemia do novo coronavírus, brasileiros estão deixando para depois a oportunidade de descobrir uma doença grave — como é o caso do câncer.
De acordo com dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca), 625 mil pessoas devem ser diagnosticadas com algum tipo de câncer apenas ao longo de 2020.
Apesar das atividades dos hospitais, clínicas médicas, odontológicas, laboratórios e qualquer outro serviço de atendimento à saúde serem consideradas essenciais, ou seja, as ordens de quarentena estaduais não determinam seus fechamentos, profissionais notaram uma diminuição na procura por exames preventivos e de diagnóstico.
De acordo com o Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem, os exames de imagem em clínicas ambulatórias tiveram queda de 73,06% entre os dias 1º e 5 de abril. Nas clínicas hospitalares, entre os dias 1º e 6 de abril, a queda foi de 58,76%.
O cirurgião oncológico e presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO), Alexandre Ferreira Oliveira, explicou que essa é uma grande preocupação da categoria.
“As pessoas não estão procurando o médico porque não querem ir ao hospital. Sentem um desconforto torácico e, quando vão ver, é um câncer no pulmão. A maioria dos serviços estão com as portas abertas, mas não aparecem novos pacientes.”
Porém, o oncologista Jorge Abissamra Filho destacou o risco do “deixar para depois” e a importância de não cogitar abandonar um tratamento ou investigação de diagnóstico nesse período.
“A chance do paciente ter uma progressão da doença é muito maior do que a chance de adquirir o coronavírus. E, mesmo que adquira, a porcentagem de óbito também é muito pequena nesses pacientes. O coronavírus não deve ser prioridade em relação a preocupação. A prioridade deve ser sempre a doença.”
Para quem já foi diagnosticado, uma alternativa, segundo o coordenador médico do Instituto de Oncologia do Hospital Santa Paula, Tiago Kenji Takahashi, pode ser o uso da telemedicina. Mas ele garante que ela ainda não substitui uma consulta médica.
“Quem está em tratamento precisa manter contato com o médico. Nós podemos mandar exames por e-mail, ter contato pelo celular. A telemedicina é uma ponte entre a consulta e ligação, mas tem toda a burocracia da proteção de dados. Ela pode resolver se o paciente não estiver em tratamento ativo, mas é preciso diálogo.”
“Alguns pacientes pediram para interromper o tratamento ou fazer aplicações da quimioterapia em um ritmo mais amplo. Mas o nosso reforço é para o paciente não perder o contato. A gente acredita que a epidemia vai passar e o tratamento vai continuar. Meses parados podem prejudicar”, completou Tiago.
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