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TV e Cinema

Carrie de Mike Flanagan mistura atualidade com sobrenatural e acerta o tom

Nova série do Prime Video atualiza a história de Carrie White para a era das redes sociais, mas nem sempre acerta ao tentar expandir um dos maiores clássicos do terror

Victória Xavier

Carrie
“Carrie” às vezes perde justamente aquilo que tornava a história original tão assustadora. Divulgação

É difícil olhar para “Carrie” sem pensar imediatamente no filme de 1976, na atuação inesquecível de Sissy Spacek e, principalmente, na cena do baile. A história criada por Stephen King já foi adaptada algumas vezes e poderia facilmente parecer mais um remake tentando lucrar em cima de uma marca conhecida. Só que existe um nome por trás desta nova versão que muda bastante essa expectativa: Mike Flanagan.

Conhecido por transformar histórias de terror em dramas profundamente humanos, Flanagan assume a primeira adaptação do romance de King para o formato de série e decide fazer algo mais ambicioso do que simplesmente recontar a história. Em vez de correr para o momento em que Carrie perde o controle, a produção quer entender quem é essa garota antes de ela se transformar na figura que o público já conhece.

E essa escolha funciona.

Na nova versão, Summer H. Howell interpreta Carrie White, uma adolescente extremamente isolada que precisa enfrentar a morte repentina do pai, uma escola hostil e uma onda de bullying que ganha proporções ainda maiores graças às redes sociais. Sua mãe, Margaret, vivida por Samantha Sloyan, continua sendo uma das figuras mais perturbadoras da história, mas também ganha novas camadas.

É justamente aí que a assinatura de Flanagan aparece com força. O diretor não está tão interessado em mostrar apenas um monstro. Ele quer mostrar como um monstro pode nascer de anos de humilhação, solidão, abuso e rejeição.

O problema é que, ao tentar explicar demais, “Carrie” às vezes perde justamente aquilo que tornava a história original tão assustadora.

A série abre espaço para personagens secundários, conflitos contemporâneos e discussões sobre redes sociais, cyberbullying e a pressão enfrentada pelos adolescentes. A atualização faz sentido e, em alguns momentos, é bastante eficiente. Afinal, a crueldade adolescente de hoje não termina quando o sinal da escola toca. Uma humilhação pode continuar circulando pela internet durante anos.

Mas essa expansão também deixa a narrativa mais inchada. O que funcionava como uma história relativamente direta sobre uma adolescente perseguida ganha novas ramificações que nem sempre possuem o mesmo impacto emocional.

Ainda assim, Summer H. Howell é uma das grandes surpresas da produção. Sua Carrie não é simplesmente uma vítima esperando pelo momento de explodir. Existe fragilidade, curiosidade, raiva e uma vontade genuína de descobrir o mundo. Isso faz com que o espectador passe mais tempo ao lado da personagem antes de chegar ao inevitável acerto de contas.

E talvez esse seja o maior mérito da série: fazer com que o público não queira apenas saber o que vai acontecer com Carrie, mas entender por que ela chegou até aquele ponto.

Para quem espera um terror sangrento do início ao fim, a produção pode decepcionar. Flanagan trabalha muito mais com o desconforto psicológico do que com sustos gratuitos. O horror está nos corredores da escola, nos olhares dos colegas, nas palavras da mãe e naquela sensação de que alguma coisa terrível está prestes a acontecer.

E quando a série finalmente abraça o lado sobrenatural da personagem, a sensação é de que estamos vendo uma história conhecida por outro ângulo.

“Carrie” não substitui o clássico de Brian De Palma e tampouco tenta fazer isso. A série parece mais interessada em conversar com o livro de Stephen King e perguntar como essa história funcionaria se Carrie existisse em 2026.

A resposta é interessante, embora irregular.

Mike Flanagan entrega uma “Carrie” mais humana, mais contemporânea e mais preocupada com as feridas emocionais da protagonista. Em compensação, ao tentar aprofundar tudo, a série acaba diminuindo um pouco do mistério e da brutalidade que fizeram a personagem se tornar um ícone.

No fim, “Carrie” funciona melhor quando lembra que, antes de ser uma história sobre telecinese, é uma história sobre uma garota que só queria pertencer a algum lugar.

E talvez seja justamente isso que continue tornando Carrie tão assustadora depois de mais de 50 anos: o sobrenatural pode ser ficção, mas a crueldade humana continua assustadoramente real.

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