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Eliseu Caetano

Brasileiros são citados em esquema de casamentos fraudulentos desmantelado nos EUA

Investigação federal revela brasileiros envolvidos em casamentos de fachada para obtenção de documentos migratórios

Eliseu Caetano

Agentes do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) montam guarda do lado de fora do Delaney Hall, que está sendo utilizado como centro de detenção do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE), em Newark, Nova Jersey, em 29 de maio de 2026.
Agentes do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) montam guarda do lado de fora do Delaney Hall, que está sendo utilizado como centro de detenção do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE), em Newark, Nova Jersey, em 29 de maio de 2026. Foto por BRYAN R. SMITH / AFP

Brasileiros aparecem entre os envolvidos em um esquema milionário de casamentos fraudulentos desmantelado pelas autoridades federais dos Estados Unidos , em Massachusetts. A investigação, conduzida pelo Departamento de Segurança Interna (DHS) e anunciada pelo Departamento de Justiça, resultou na prisão de cinco mulheres e na apresentação de acusações criminais contra seis pessoas. O grupo é suspeito de organizar casamentos de fachada entre cidadãos americanos e estrangeiros que viviam ilegalmente no país, cobrando até 40 mil dólares por união para facilitar a obtenção de benefícios migratórios.

Os documentos judiciais revelam que brasileiros participaram de diferentes etapas do esquema. Um deles procurou voluntariamente as autoridades federais e admitiu ter pago pela organização de um casamento fraudulento. Outro já tinha uma ordem de deportação emitida em 2009, mas permaneceu nos Estados Unidos e se casou com a própria mulher apontada como líder da organização criminosa.

A principal investigada é Jennifer Gonzalez, de 43 anos, moradora de Fall River, cidade localizada a aproximadamente 80 quilômetros ao sul de Boston. Segundo os promotores federais, ela comandava a operação havia mais de dez anos e teria arrecadado milhões de dólares organizando casamentos falsos para estrangeiros que buscavam regularizar a situação migratória.

BRASILEIRO COM ORDEM DE DEPORTAÇÃO DESDE 2009 SE CASOU COM LÍDER DO ESQUEMA

Um dos casos detalhados na investigação envolve um brasileiro identificado apenas pelas iniciais J.P.
Segundo a declaração apresentada à Justiça Federal, o brasileiro já tinha uma ordem de deportação emitida em 10 de fevereiro de 2009. A decisão foi mantida após recurso, mas ele continuou vivendo nos Estados Unidos.

Em 16 de outubro de 2019, J.P. se casou com Jennifer Gonzalez, em Fall River, Massachusetts. Na ocasião, segundo os investigadores, ele não tinha autorização legal para permanecer no país.

Após o casamento, Gonzalez apresentou ao Serviço de Cidadania e Imigração dos Estados Unidos (USCIS) um formulário I-130, utilizado por cidadãos americanos para solicitar o reconhecimento de vínculo familiar com estrangeiros, etapa que pode permitir a obtenção de residência permanente.

Os agentes federais concluíram que o casamento era fraudulento e tinha como objetivo conseguir benefícios migratórios para o brasileiro.
Gonzalez e J.P. tinham uma entrevista marcada no USCIS para 27 de agosto de 2026, mas nenhum dos dois compareceu. O pedido foi negado em 15 de setembro, pouco mais de um mês antes do anúncio da operação.

A documentação não esclarece se o brasileiro continua nos Estados Unidos, se foi alvo de uma nova medida de deportação ou se responde a algum processo criminal relacionado ao caso.

OUTRO BRASILEIRO PROCUROU AUTORIDADES E ADMITIU TER PAGO POR CASAMENTO FALSO

Outro ponto importante da investigação envolve um cidadão brasileiro identificado nos documentos como SOI-1, sigla utilizada pelos investigadores para preservar a identidade de uma fonte de informação.

Segundo o depoimento apresentado à Justiça, o brasileiro não tinha antecedentes criminais e procurou voluntariamente agentes do Homeland Security Investigations (HSI), divisão de investigações do Departamento de Segurança Interna.

Ele admitiu ter tentado obter benefícios migratórios ilegalmente por meio de pagamentos a Jennifer Gonzalez e seus associados para organizar um casamento fraudulento com Erica Daniels, uma das mulheres acusadas.

As informações fornecidas por esse brasileiro ajudaram os investigadores a aprofundar a apuração sobre o funcionamento da organização.
A investigação também contou com uma testemunha colaboradora identificada como CW-1, que foi apresentada a Gonzalez como um cidadão brasileiro sem direito legal de permanecer nos Estados Unidos.

Essa pessoa participou de conversas e negociações para a realização de um casamento fraudulento com Cherise Alejandro, apontada pelos investigadores como cunhada de Gonzalez.

Os documentos informam que a testemunha já havia colaborado anteriormente com órgãos federais, inclusive com o Bureau de Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos (ATF), e poderia receber compensação financeira pela colaboração.

FOTOGRAFIAS MOSTRAM CASAMENTOS COM BRASILEIROS EM 2018 E 2024

Além dos depoimentos, o Departamento de Justiça divulgou fotografias de cerimônias que, segundo os investigadores, foram organizadas para simular relacionamentos legítimos.

Uma das imagens mostra Jessica Tavares, de 31 anos, em um suposto casamento fraudulento com um imigrante brasileiro, realizado em maio de 2018.
Outra fotografia mostra Erica Daniels, de 29 anos, em uma cerimônia com um brasileiro, em agosto de 2024.

As imagens foram divulgadas pelas autoridades como parte das evidências reunidas durante a investigação.
Os nomes dos brasileiros que aparecem nessas fotografias não foram divulgados na nota oficial.

Também não há confirmação de que todos os brasileiros mencionados nos documentos sejam pessoas diferentes ou de que tenham sido formalmente denunciados criminalmente.

ORGANIZAÇÃO COBRAVA ATÉ 40 MIL DÓLARES POR CASAMENTO

Segundo o Departamento de Justiça, Jennifer Gonzalez administrava uma estrutura dedicada a aproximar estrangeiros sem situação migratória regular de cidadãos americanos dispostos a participar dos casamentos falsos.

Os investigadores estimam que a organização realizava entre 18 e 20 casamentos fraudulentos por ano, cobrando de 38 mil a 40 mil dólares por operação.
Considerando esses números, o faturamento bruto estimado poderia variar de 684 mil a 800 mil dólares por ano. Os promotores afirmam que Gonzalez recebia centenas de milhares de dólares anualmente e teria lucrado milhões durante o período investigado.

Parte do dinheiro era utilizada para remunerar cidadãos americanos que aceitavam participar das uniões.
Gonzalez também orientava os clientes a construir provas de uma vida conjugal que, segundo a acusação, não existia.

Entre as instruções estavam a abertura de contas bancárias conjuntas, a contratação de seguros de vida e a produção de fotografias de casais em cerimônias e encontros sociais.

O objetivo era apresentar esses documentos ao USCIS para convencer as autoridades de que os casamentos eram verdadeiros.
Segundo os investigadores, Gonzalez dizia aos clientes que seriam necessários de três a quatro meses para preparar a documentação antes de apresentar os pedidos migratórios.

GRAVAÇÕES REVELAM CONTRATOS DISFARÇADOS E PAGAMENTOS MENSAIS

Durante a investigação, agentes federais realizaram gravações em áudio e vídeo que registraram parte das negociações.
Em uma das operações, Gonzalez teria orientado a impressão e assinatura de um contrato apresentado como empréstimo, embora o documento estivesse relacionado à organização de um casamento fraudulento.

Ela também foi gravada recebendo uma entrada de três mil dólares em dinheiro.

Segundo a acusação, Gonzalez explicou que evitava mencionar o cônjuge no contrato porque isso poderia produzir provas incriminadoras.
Além do valor cobrado pela organização do casamento, alguns clientes realizavam pagamentos mensais de aproximadamente 500 dólares aos supostos cônjuges ou a pessoas próximas deles para manter a aparência de uma união legítima.

Os investigadores também identificaram casos em que as acusadas se casaram mais de uma vez com estrangeiros que buscavam benefícios migratórios.

LÍDER DO ESQUEMA DIZIA QUE MASSACHUSETTS ERA UM REFÚGIO PARA IMIGRANTES ILEGAIS

As gravações divulgadas pelo Departamento de Justiça também mostram como Gonzalez utilizava as políticas migratórias de Massachusetts para convencer estrangeiros a contratar seus serviços.

Em uma das conversas, ela afirmou que o estado oferecia condições favoráveis aos imigrantes, apesar do endurecimento da fiscalização federal durante o governo do presidente Donald Trump.

“Massachusetts é o melhor lugar para você estar. Isso é um fato”, declarou Gonzalez, segundo transcrição divulgada pelos promotores.
Em outra conversa, ela afirmou que Trump não gostava do estado porque o governo local protegia os imigrantes.
Gonzalez também mencionou o acesso a seguro de saúde e programas de assistência social.

As declarações fazem parte das gravações reunidas pelos investigadores e não representam uma avaliação oficial sobre as políticas migratórias de Massachusetts.

DINHEIRO DO ESQUEMA ERA INVESTIDO NA REPÚBLICA DOMINICANA

Outro ponto da investigação envolve o destino dos recursos arrecadados.
Segundo os promotores, Gonzalez afirmou em gravações que utilizava o dinheiro obtido com os casamentos fraudulentos para comprar imóveis e investir em empresas na República Dominicana, país que identificava como sua terra natal.

Os investigadores também encontraram indícios de irregularidades no recebimento de benefícios sociais.

De acordo com a acusação, algumas participantes do esquema declararam falsamente, em pedidos de assistência alimentar do estado de Massachusetts, que nunca haviam sido casadas, apesar de terem apresentado documentos migratórios em nome de seus supostos cônjuges.

Gonzalez teria recebido e utilizado mais de 120 mil dólares em benefícios do SNAP, programa federal de assistência alimentar, enquanto administrava a organização e adquiria propriedades no exterior.

SEIS MULHERES ACUSADAS; CINCO FORAM PRESAS

As seis mulheres formalmente acusadas são Jennifer Gonzalez, de 43 anos; Erica Daniels, de 29; Chreise Alejandro, de 39; Amara Pugh, de 31; Jessica Tavares, de 31; e Jaylin Hill, de 26 anos.

Cinco foram presas nesta quarta-feira. Jaylin Hill já estava cumprindo pena em uma prisão estadual de Massachusetts por uma condenação relacionada a armas de fogo.

Segundo os investigadores, Daniels, Alejandro, Tavares e Hill, todas cidadãs americanas, eram remuneradas para participar de casamentos fraudulentos com estrangeiros.

Amara Pugh, também americana, trabalhava como secretária da organização.
As seis foram acusadas de conspiração para facilitar a permanência ilegal de estrangeiros, facilitação da permanência ilegal, conspiração para fraude matrimonial e fraude matrimonial.

Os crimes relacionados à permanência ilegal de estrangeiros podem resultar em penas de até dez anos de prisão por acusação. Já os delitos de fraude matrimonial preveem até cinco anos de prisão por acusação.

Também estão previstas multas de até 250 mil dólares por infração.
A operação foi anunciada pela procuradora federal Leah B. Foley, com participação do Homeland Security Investigations, do USCIS e de outras agências federais.

A investigação continua, e as autoridades ainda não divulgaram quantos estrangeiros, incluindo brasileiros, conseguiram efetivamente benefícios migratórios por meio dos casamentos investigados.

Os documentos também não esclarecem quantos dos supostos casamentos fraudulentos resultaram na concessão de green cards.
As seis acusadas são consideradas inocentes até que a Justiça determine eventual responsabilidade criminal.

No caso dos brasileiros mencionados, a documentação divulgada até agora não confirma prisões ou acusações criminais formais contra eles nesta operação.

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