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Thiago Uberreich

Em ‘As lições da Copa’, Zagallo detalha comemoração pela conquista da Copa de 1970

O livro, escrito pelo treinador tricampeão, é um documento histórico sobre o maior título da seleção brasileira

Thiago Uberreich

Zagallo aparece sorrindo
Zagallo MARCOS ARCOVERDE/ESTADÃO CONTEÚDO - 28/04/2015

Mário Jorge Lobo Zagallo (1931-2024) escreveu um livro de memórias, “As lições da Copa”, para registrar as histórias sobre a inesquecível conquista do tricampeonato mundial, em 1970, no México. Ao relembrar a vitória diante da Itália, na finalíssima, no Estádio Azteca, por 4 a 1, o treinador destacou que a festa teve início a partir do segundo gol da equipe, na etapa final: “(…) A loucura começou com o gol de Gérson. Já haviam decorrido vinte e um minutos do segundo meio-tempo. Então, a vitória parecia antecipar-se. Ninguém acreditava que a Itália tivesse mais pernas para tentar a reação. Teríamos que contar com a invasão de campo, que sucederia ao final do jogo. Mas a invasão não esperou a hora. O gol de Gérson a precipitou. Aquela gente prostrada no banco, do lado de fora, os repórteres brasileiros e até mesmo o pessoal de casa, ou os mexicanos ali na vizinhança, todos se foram pelo campo adentro. A loucura tomou conta de nós. Gérson não se conteve; chorou, ajoelhado. (…).”

Depois de um primeiro tempo equilibrado e empatado por 1 a 1, gols de Pelé e de Boninsegna, o tento de Gérson provocou uma grande euforia, descrita por Zagallo: “(…) Aproximei-me do grande jogador. Passei-lhe a mão pela cabeça. Vi o Chirol [médico] perto de mim; chegou correndo, aos pulos. Chirol ajoelhou-se também, também chorou ajoelhado. Acho que ambos rezavam. Eu nunca deixei de rezar antes dos jogos e na concentração. Mas, ali, só os dois rezavam. Só eles sabem o que diziam na oração, mais balbuciada que falada; mais para a alma do que para os lábios. Quanto bem faz à alma de cada um de nós a comunhão de todas as almas! Voltamos ao banco assim como se estivéssemos ungidos; leves, leves. Tive a sensação de que me evolava. Para onde estaria indo? (…).”

A partir do gol de Gérson, a seleção brasileira subiu ainda mais de produção e a Itália “despencou”. O momento do terceiro gol foi descrito assim pelo “Velho Lobo”: “(…) Eu permaneci no banco lotado, com um olho no jogo e outro no relógio. Cinco minutos depois, minutos de ansiedade terrível, Jairzinho decretou a tranqüilidade ao coração de toda a nossa gente. 3×1, sim três a um. O Imperador ajoelhou-se também; fez o sinal da cruz duas vezes, chorando. O Imperador Jairzinho encheu o mapa colorido pela nossa imaginação. Não havia mais dúvida, estava na cara que seríamos tricampeões. Os médicos que se fôssem, acaso não estivessem gostando. Já ninguém temeria enfarte. Não seria mais possível improvisar-se uma colher de chá. Mas a cachaça, se alguma houvesse ali perto, que se prevenisse. (…).”

Já a “apoteose” veio aos 41 minutos em uma jogada que coroou o futebol coletivo da seleção: Tostão, Clodoaldo, Rivellino, Jairzinho, Pelé e o desfecho do capitão Carlos Alberto. “(…) Íamos ao final do jogo; só quatro minutos restavam. Eis quando Carlos Alberto, numa daquelas suas jogadas típicas, incumbiu-se do desfecho de ouro. Ele veio como uma pá de cal jogada no time italiano. Ninguém acreditava mais no quarto gol. Quatro tentos violaram aquela defesa tida e havida como a melhor do mundo, que havia deixado fama de ser inexpugnável nos jogos anteriores da Copa. Tudo correu de forma brilhante para a nossa Seleção. O final não poderia deixar de ser apoteótico, embora a apoteose houvesse custado muitas lágrimas, mas como se torna gostoso ver a gente chorar de emoção intensamente jubilosa! (…)”, relatou o comandante do tri. 

Zagallo, campeão como jogador em 1958, na Suécia, e em 1962, no Chile, sentia agora o gosto de ser campeão como treinador da seleção: “(…) As comemorações recrudesceram. Todo mundo cantava, pulava e vibrava numa confusão infernal. Mas comigo ocorreu o oposto. Muito havia chorado, em 1958 e 1962, sendo natural que voltasse a chorar sem medida. Não havia como! Sentia um nó na garganta e outro no peito. Nem o contágio da choradeira em volta servia-me de provocação. Não tinha como desabafar, apesar de sentir que alguma coisa me faltava: o choro. Aquela seria a minha hora de pôr para fora tudo que minha alma havia engolido. Tive peito para colocar minha carreira em xeque ao aceitar o comando da seleção, mas o peito faltou-me ali; não me deixou chorar. (…).”

Zagallo assumiu o comando da seleção a 78 dias da estreia contra a Tchecoslováquia. Substituto de João Saldanha, ele soube fazer as mudanças necessárias para que o Brasil conquistasse em definitivo a taça Jules Rimet.

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