O poder tem gênero?
Por que, na política, as mulheres precisam estar vestidas como homens para serem respeitadas?
Aliás, não só na política, mas como em qualquer espaço de poder?
Depois de ler o livro Mulher, roupa, trabalho: como se veste a desigualdade de gênero, nunca mais observei essa questão da mesma maneira.
Passei a observar o quanto mulheres que “chegaram lá” precisaram incorporar códigos masculinos não só na maneira de se vestir, mas também de se portar. Acho que o exemplo mais emblemático disso é a ex-Presidenta Dilma Rousseff, com seus tailleurs bem cortados e a voz impostada.
Mas essa adaptação não se restringe às mulheres que ocupam cargos de liderança. Também a vejo naquelas que, mesmo tendo um estilo mais feminino, que privilegia tons claros, estampas florais e cortes fluidos, recorrem ao clássico terninho neutro quando precisam transmitir autoridade e conquistar respeito.
O terno, inclusive, é a primeira roupa que vem à nossa mente quando pensamos no ambiente de trabalho e é originalmente masculno, mas adaptado ao feminino com cortes que não marcam o corpo ou em cores sóbrias, por exemplo.
É como se, para que nossa mente finalmente tivesse espaço, precisássemos nos afastar de um lugar ao qual fomos historicamente reduzidas: o de corpo.
Um espaço criado desde a Idade Moderna, quando a medicina e o pensamento filosófico passaram a explicar as diferenças de gênero a partir da anatomia e da fisiologia, usando o corpo feminino como justificativa para sua suposta fragilidade moral, intelectual e emocional
Foi quando resolvemos ocupar os espaços de trabalho, com muita insistência, que a roupa se tornou um meio de acesso a um lugar que, teoricamente, não nos pertence.
Enquanto isso, peças consideradas exclusivamente femininas e que são permitidas no ambiente de trabalho são as mais desconfortáveis possíveis: saias e saltos. E o trabalho ainda não terminou. Existe toda uma dedicação a mais por trás da produção feminina, que inclui maquiagem e cabelo que demora mais pra ser arrumado, etc.
No final, uma contradição: a mulher precisa se distanciar dos sinais que a sociedade associa à feminilidade para ser levada a sério, mas também é julgada quando não corresponde às expectativas sobre como uma mulher deve se apresentar.
O problema não é o terno, o salto, a saia ou a maquiagem. É o fato de que, se para ocupar um espaço de poder uma mulher precisa esconder parte de quem é, será que esse espaço realmente se tornou dela?