Entenda como a redução da Selic afeta o seu bolso
O Comitê de Política Monetária do Banco Central, o Copom, reduziu a Selic — a taxa básica de juros da economia brasileira — para 2% ao ano, o nível mais baixo da história e menos da metade do valor de um ano atrás. Mas como a decisão dos economistas do Banco Central (BC) impacta na vida dos brasileiros? Em resumo, a Selic é uma da ferramenta para o controle da inflação e, com isso, ela pode ser usada para frear ou aumentar o consumo, que por sua vez incide diretamente em investimentos e criação de empregos. A taxa também está ligada aos juros praticados por bancos na hora de emprestar dinheiro e fazer financiamentos, além de influenciar os investimentos de renda fixa, como a poupança, e mexer na cotação do dólar.
Para explicar melhor, é preciso entender o que é a Selic. A sigla vem de Sistema Especial de Liquidação e de Custódia, que é a referência do BC para transações diárias de emissão, venda e compra de títulos públicos. Esses títulos públicos, por sua vez, são uma das formas de o governo arrecadar dinheiro para a manutenção do país — seja para construir mais estradas e hospitais ou investir na segurança —, além da arrecadação de impostos. A taxa Selic é decidida pelo Copom a cada 45 dias, e é influenciada por questões como a inflação, risco de recessão e perspectivas de crescimento econômico. A facilidade de acesso ao crédito bancário e ao financiamento é um dos principais reflexos da Selic no bolso dos brasileiros. Como serve de base para as taxas de juros em todo o país, quanto mais baixa a Selic, menores tendem a ser os juros impostos pelas instituições financeiras. “A Selic torna mais barato os recursos dos bancos para fazer os empréstimos. Isso significa que o empréstimo do dia a dia, seja para comprar um carro ou uma casa, terá juros menores”, explica Reginaldo Nogueira, diretor-geral do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec).
[jp-related-posts ids=”954995,954530,954433″]
A redução da Selic é uma estratégia do BC para fazer o brasileiro tomar mais dinheiro emprestado, e, com isso, fazer mais investimentos ou aumentar o seu consumo. Em tempos de recessão — como agora — é uma das alternativas para aquecer a atividade econômica. “É como se o Banco Central estivesse tentando empurrar um carro quebrado”, compara Michael Viriato, professor de finanças do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper). O objetivo é fazer com que esse dinheiro gire a roda da economia: a alta no consumo impacta direto no aumento da produção de bens. Para se adequar a essa elevação da demanda, as empresas contratam mais e investem em inovação. O risco, porém, é que um superaquecimento da economia faça a inflação disparar. Isso porque com o aumento do consumo, os bens tendem a ficar escassos, logo a lei de oferta e procura faz o valor deles subir, ou seja, inflaciona o preço.”Mas diante do nosso cenário econômico com pandemia e quebradeira de empresas, é um risco muito pequeno”, diz Nogueira.
Especialistas preveem que a taxa não deva ficar na baixa histórica por muito tempo. Segundo o boletim Focus, o relatório semanal divulgado pelo BC com a opinião de analistas e consultorias financeiras sobre os rumos da economia, é esperada alta para 3% da Selic no fim do próximo ano, e para 5% em 2022. A estimativa é que o corte anunciado nessa quarta-feira, 5, demore até seis meses para fazer efeito na economia real. “O governo precisa ter o timming de voltar a subir os juros quando a economia começar a reagir”, afirma o diretor-geral do Ibmec. Para Viriato, a medida está de acordo com a necessidade do país em retomar a economia no pós-crise. “A pandemia fez com que várias pessoas diminuíssem o consumo, e várias empresas foram obrigadas a fechar. Olhando para a frente, a redução da Selic deve trazer bons frutos.”
Impacto nos investimentos
A taxa de juros do Banco Central também é usada como referência aos investimentos em renda fixa. O tesouro Selic é o mais impactado, pois a sua rentabilidade é proporcional ao nível da taxa, mas também há reflexos em outros ativos, como o Certificado de Depósito Bancário (CDB). A Selic também incide diretamente na poupança, a forma de investimento favorita dos brasileiros. Desde 2012, a rentabilidade do dinheiro parado no banco está atrelada a taxa de juros, e 70% do rendimento é em cima do valor da Selic. Com o corte, a poupança passará a render uma média de 1,6% ao ano. A baixa da Selic ao nível histórico deve reforçar o movimento de investidores em direção a ativos mais rentáveis, como a bolsa de valores, que nos últimos meses já bateu recorde de novos usuários. Em junho, a B3 somou 2,6 milhões de investidores, alta de 58% em comparação ao fim do ano passado. O câmbio também é afetado pela Selic. Assim como as pessoas que mantém poupança enxergam os rendimentos cair com a baixa na taxa de juros, os grandes investidores internacionais também são afetados com o encolhimento da Selic. Isso faz com que eles tirem os seus dólares do Brasil em busca de mercados mais atrativos. “Essa escassez de dólares aumenta a taxa de câmbio, e com isso do real fica mais fraco”, explica Nogueira.
Assuntos
continue lendo
Macroeconomia
Receita libera consulta ao último lote de restituição do Imposto de Renda 2026
Cerca de 521,9 mil contribuintes receberão R$ 1,2 bilhão
- Projeção do Focus para crescimento do PIB de 2026 segue em 1,98% Estadão Conteúdo · há 1 semana
- Focus: IPCA 2026 segue em 5,02%, acima da meta de inflação; Selic 2027 fica em 13,75% Estadão Conteúdo · há 1 semana
- BC reduz taxa de juros para 14% ao ano, menor patamar desde março de 2025 Júlia Mano · há 3 semanas
- Petrobras anuncia descoberta de gás em poço na Colômbia Estadão Conteúdo · há 3 semanas