Casa onde criança de 14 anos foi morta tem 72 marcas de tiro, diz entidade

  • Por Jovem Pan
  • 20/05/2020 21h01
Reprodução/TwitterJoão Pedro foi baleado durante uma operação policial no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo

A casa onde o adolescente João Pedro Mattos, de 14 anos, foi assassinado nesta segunda-feira (18), tem 72 marcas de tiros, de acordo com a organização não governamental Rio de Paz. João Pedro foi baleado durante uma operação policial no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, na região metropolitana do Rio de Janeiro.

O articulador social da entidade, João Luis Silva, acompanhou o sepultamento. Depois, ele foi até a casa da família do adolescente, onde filmou e contou as marcas nas paredes internas. De acordo com ele, os parentes do menino relataram diversas irregularidades na ação policial.

“Logo após o sepultamento, nós fomos com parentes e líderes comunitários ver em que estado ficou a casa depois dessa operação desastrosa. Tivemos acesso à residência e nos foi informado que a perícia tinha sido feita na hora. Eu contei 72 buracos. Entre buracos na janela da sala, na parede da sala, na parede do quarto, e também buracos em um outro cômodo que fica fora da casa. E um disparo acertou a TV”, contou Silva.

Inquérito

A Polícia Civil informou que a Corregedoria-Geral da corporação instaurou sindicância administrativa disciplinar “para apurar a conduta dos policiais civis que participaram da ação no Complexo do Salgueiro”.

A corporação informou que o inquérito para apurar a morte de João Pedro, “ferido durante operação da Polícia Federal com apoio da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core)”, foi instaurada pela Delegacia de Homicídios de Niterói, São Gonçalo e Itaboraí (DHNSGI).

“Foi realizada perícia no local e testemunhas prestaram depoimento na delegacia. Os policiais já foram ouvidos e as armas apreendidas para confronto balístico. O piloto do helicóptero prestará depoimento e familiares também serão ouvidos. Os laudos periciais estão sendo analisados e outras diligências estão sendo realizadas para esclarecer as circunstâncias do fato”.

A Polícia Federal também participou da operação, mas informou que não vai se manifestar, já que “há investigação em curso para apurar o fato”. O objetivo da ação era cumprir dois mandados de busca e apreensão contra lideranças de uma facção criminosa em São Gonçalo.

Operação

Segundo o relato de moradores do local, a casa é do avô de João Pedro. No momento da operação, estavam reunidas seis crianças e adolescentes, que jogavam sinuca no quintal quando ouviram a aproximação de um helicóptero e disparos de armas de fogo, indo se refugiar dentro de casa. Quando os policiais entraram disparando, os jovens começaram a pedir ajuda pelo WhatsApp.

Após ser atingido, João Pedro foi levado pelos policiais de carro, com o auxílio de um primo do menino, e depois transportado de helicóptero. Ele só foi localizado pela família por volta das 4h de ontem (19) já no IML, sem registro de passagem por nenhum hospital. A ação ocorreu na tarde de segunda.

Denúncia à ONU

O assassinato de João Pedro foi denunciado à Organização das Nações Unidas (ONU) e à Organização dos Estados Americanos (OEA) pela deputada estadual Renata Souza (PSOL), presidente da Comissão de Direitos Humanos e Cidadania da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), junto com o deputado federal Marcelo Freixo (PSOL-RJ).

A denúncia envolve também a morte de pelo menos 12 pessoas em uma operação no Complexo do Alemão, zona norte do Rio de Janeiro, na sexta-feira (15).

A Anistia Internacional Brasil e Justiça Global, em conjunto com o Coletivo Papo Reto de comunicação comunitária, com sede no Complexo do Alemão, divulgaram uma nota conjunta em que condenam as operações policiais ocorridas no Alemão e no Complexo do Salgueiro.

As entidades cobram explicações do governo do estado do Rio de Janeiro e do Ministério Público Estadual sobre as operações no contexto da pandemia da Covid-19, que, segundo a nota, prejudicam as medidas de proteção dos moradores das favelas nesse período de isolamento social e as atividades humanitárias emergenciais como a distribuição de cestas básicas para os mais necessitados.

“Exigimos que as polícias adotem os mesmos parâmetros de atuação em todos os territórios do Estado e das cidades e só realize operações quando tiverem a total garantia de que as vidas de todos e todas os moradores estejam protegidas. Exigimos também que os agentes do Estado, que podem ser veículos de transmissão da Covid-19, tomem as medidas necessárias para a proteção da saúde e da vida dos moradores das comunidades”, disse a nota.

Witzel

Em nota, o governo do estado disse que o governador Wilson Witzel, “já determinou rigorosa investigação sobre o caso e prometeu encaminhar todas as demandas apresentadas para os secretários de Estado de Polícia Militar, coronel Rogério Figueredo, e de Polícia Civil, Marcus Vinicius”.

Ontem (19), Witzel se reuniu por videoconferência, com representantes da Anistia Internacional, lideranças comunitárias e a deputada estadual Mônica Francisco, e lamentou a morte de João Pedro. O governador também falou das ações adotadas nas comunidades durante a pandemia do novo coronavírus, como abastecimento de água e sanitização de vias e espaços públicos, becos, vielas e escadarias.

Procurado, o Ministério Público Estadual não se manifestou sobre a nota conjunta.

* Com informações da Agência Brasil