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Política

Lula mira endividados e Flávio aposta em Tarcísio e no embate com STF antes do 1º turno

Presidente mantém aposta na economia, enquanto senador mobiliza aliados e intensifica críticas ao STF; fim das bets, notícia falsa sobre Nossa Senhora e caso Master marcaram a última semana antes das urnas

Matheus Alleoni e Beatriz Manfredini

Lula e Flávio Bolsonaro
Lula e Flávio Bolsonaro Foto: Ricardo Stuckert e Vittor Sales

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) encerraram neste sábado (3) a campanha de rua antes do primeiro turno das eleições de 2026, reforçando as estratégias que marcaram a reta final da disputa. Em São Paulo, Lula voltou a apostar no endividamento das famílias e no confronto com o bolsonarismo. Flávio participou de atos no interior paulista e no Rio de Janeiro, ampliando a mobilização de aliados e intensificando as críticas ao Supremo Tribunal Federal (STF).

Na Avenida Paulista, Lula caminhou ao lado do candidato petista ao governo de São Paulo, Fernando Haddad, e voltou a defender medidas para aliviar o orçamento das famílias. Criticou os juros dos cartões de crédito, que classificou como “uma roubalheira”, e afirmou que as bets “viraram uma doença para o povo brasileiro”. O presidente também defendeu o fim da escala 6×1 e atacou os adversários, mencionando as investigações sobre irregularidades na Previdência e o caso Banco Master. O ato teve um princípio de confusão após policiais militares determinarem a retirada de caminhões da região.

Flávio começou o dia com uma motociata ao lado do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), entre Santa Bárbara d’Oeste e Americana, no interior paulista. A mobilização também reuniu o prefeito da capital paulista, Ricardo Nunes (MDB), e os candidatos ao Senado André do Prado (PL) e Guilherme Derrite (PP). Após o percurso, o senador defendeu mudanças no Judiciário, afirmou que o STF não pode funcionar como “uma delegacia de polícia” e acusou o PT de utilizar instituições para perseguir adversários, sem apresentar provas.

À tarde, Flávio seguiu para o Rio de Janeiro, onde participou de uma carreata e motociata entre Campo Grande e Bangu, acompanhado do candidato ao governo fluminense Douglas Ruas (PL) e do candidato ao Senado Carlos Jordy (PL). “Esse é o último ato na rua antes de vencer a eleição”, afirmou. O encerramento da campanha reforçou a aposta na mobilização do eleitorado, que ganhou espaço nas últimas semanas.

Os discursos deste sábado resumiram os caminhos escolhidos pelas duas candidaturas. Lula chega às urnas tentando transformar os anúncios econômicos em votos, enquanto Flávio busca ampliar o eleitorado para além do bolsonarismo sem perder sua base tradicional. As estratégias, porém, tiveram de dividir espaço na última semana com a notícia falsa sobre Nossa Senhora Aparecida, as revelações envolvendo o Banco Master e a crise no STF.

Economia palpável ganha força na campanha de Lula

Em agosto, integrantes do governo e aliados próximos a Lula resumiam a estratégia do presidente pela expressão “jogar parado”. A avaliação era que o petista não precisava aumentar os riscos enquanto permanecesse à frente nas pesquisas. Parte dessa orientação foi preservada, mas a proximidade da votação aumentou a pressão por medidas capazes de alcançar o eleitor antes das urnas.

A primeira estratégia havia sido apresentar os números do governo. Desemprego recorde, inflação dentro da meta e isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil foram utilizados para defender os resultados do terceiro mandato. Os indicadores, no entanto, não produziram o efeito eleitoral esperado.

Em conversas reservadas, petistas passaram a apontar um problema de comunicação: bons resultados macroeconômicos tinham alcance limitado quando o eleitor não percebia melhora semelhante no cotidiano. A campanha passou, então, a apostar na chamada “economia palpável”, com medidas voltadas diretamente ao orçamento doméstico.

O fim do imposto federal sobre as “blusinhas”, a defesa da redução da escala 6×1 e o novo Desenrola fizeram parte desse movimento. A proibição das bets aprofundou a estratégia ao associar as apostas ao endividamento das famílias, mas também abriu uma contradição explorada por Flávio: o próprio governo Lula havia regulamentado o setor. O senador classificou a decisão como “estelionato” e questionou o anúncio a nove dias da eleição.

A concentração das medidas às vésperas da votação revela uma particularidade da ofensiva econômica. Embora a proibição de novos depósitos nas bets tenha efeito imediato, as plataformas só deixarão de funcionar em 6 de outubro, enquanto a renegociação de dívidas pelo Desenrola depende de etapas posteriores. O governo tenta antecipar o efeito político de medidas cujos resultados ainda não chegaram integralmente ao bolso do eleitor.

A defesa da soberania nacional e a recuperação da trajetória política do presidente continuaram presentes, mas os anúncios econômicos ganharam espaço na reta final. A cautela em relação à exposição pessoal de Lula também foi preservada. A mudança esteve no ritmo de apresentação das medidas, não na estratégia construída desde o início da campanha.

Flávio busca ampliar o eleitorado sem perder a própria base

Do lado de Flávio, a prioridade passou da consolidação da candidatura à mobilização dos eleitores. A campanha ampliou a participação de Tarcísio de Freitas e Ricardo Nunes, que articularam agendas e mobilizaram aliados com atuação nos bairros da capital paulista, onde a esquerda costuma vencer.

A concentração de compromissos em São Paulo ao longo da última semana culminou na motocarreata deste sábado. O movimento procurou conciliar duas frentes que acompanham a candidatura desde a pré-campanha: preservar a identificação com o bolsonarismo e reduzir a resistência entre indecisos e eleitores de centro.

A presença dos aliados ampliou a estrutura de mobilização, enquanto Flávio tentou manter a imagem mais moderada construída para alcançar quem não se identifica diretamente com o grupo político do pai. Ao mesmo tempo, o candidato preservou as críticas ao STF e a identificação com as bandeiras tradicionais do bolsonarismo.

A estratégia, porém, foi atravessada pela notícia falsa de que Flávio pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. O episódio acendeu um alerta na equipe pelo potencial de desgaste entre católicos. Segundo a Palver, 37% das mensagens analisadas trataram a narrativa como verdadeira, embora o levantamento não permita medir a proporção de eleitores que acreditaram no boato.

A campanha escalou a deputada Simone Marquetto (PP), que tem trânsito no eleitorado católico, para ajudar a rebater a mentira. A reação avançou para o campo jurídico, com uma notícia-crime ao Ministério Público Eleitoral e pedidos de retirada das publicações. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) manteve nesta semana uma decisão que determina a remoção de conteúdos que associem falsamente Flávio ou sua família à proposta de retirar o título da santa.

O episódio também marcou o encerramento da campanha em São Paulo. Em Americana, apoiadores levaram imagens de Nossa Senhora Aparecida e uma criança participou do ato caracterizada como a santa. A homenagem mostrou como uma mobilização planejada para ampliar a busca por votos passou a incorporar também a tentativa de conter os efeitos da notícia falsa.

A controvérsia expôs uma dificuldade para a candidatura que busca ampliar o eleitorado sem perder a mobilização dos segmentos tradicionalmente ligados ao bolsonarismo. A estrutura de aliados, organizada para intensificar a campanha nas ruas, também precisou ser utilizada para responder a um desgaste que não estava previsto no planejamento inicial.

Master e STF complicam os cálculos das duas campanhas

O caso Banco Master também passou a gerar novos questionamentos sobre personagens ligados às duas candidaturas. Em agosto, o entorno de Lula monitorava os episódios envolvendo Lulinha e Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, ex-chefe de gabinete do presidente, sem considerá-los capazes de alterar imediatamente a estratégia.

Desde então, mensagens em que o advogado Walfrido Warde afirma que Lula agradeceu a Daniel Vorcaro por um whisky e enviou um abraço ampliaram os questionamentos. O Planalto nega a versão. O caso alcançou ainda Jaques Wagner (PT-BA), acusado por Vorcaro de receber propina em uma proposta de delação rejeitada pela PF e pela PGR por insuficiência de provas. O senador nega as alegações.

Flávio, que vinha tentando explorar o chamado “efeito Moraes” após as revelações sobre o banqueiro, também passou a enfrentar questionamentos. André Mendonça autorizou uma investigação sobre a atuação do senador nas negociações para financiar o filme Dark Horse, biografia de Jair Bolsonaro. O candidato nega irregularidades e afirma que os recursos destinados à produção tiveram origem privada.

No entorno da campanha, a avaliação é que a investigação representa um risco controlado. A maior preocupação está no conteúdo que ainda pode surgir com o avanço das apurações. A situação acrescentou uma dimensão defensiva à estratégia de explorar o Master politicamente, enquanto o campo governista também precisou responder às revelações envolvendo personagens próximos ao presidente.

As novas informações aprofundaram ainda a guerra no STF. A retirada de sigilo determinada por Mendonça, as divergências sobre o acesso às provas e os questionamentos envolvendo Alexandre de Moraes transformaram a condução das investigações em um foco de conflito entre os ministros. A disputa passou a envolver não apenas o conteúdo das mensagens de Vorcaro, mas também os limites das decisões individuais e a forma como as informações são divulgadas.

Para Flávio, os conflitos ofereceram novos elementos ao discurso de críticas à Corte, reforçado no último dia de campanha. A investigação sobre sua própria atuação, porém, exigiu que a candidatura também respondesse a questionamentos relacionados ao Master. Para Lula, as revelações ampliaram a exposição de relações políticas que não estavam no centro da estratégia eleitoral.

O encerramento da campanha manteve, assim, as prioridades construídas ao longo dos últimos meses, mas também expôs os limites de cada estratégia. Lula intensificou os anúncios econômicos para aproximar os resultados do governo do cotidiano do eleitor, enquanto Flávio utilizou a estrutura política dos aliados para ampliar a mobilização sem perder a própria base.

Na véspera da votação, os dois candidatos chegaram às urnas tentando transformar essas apostas em votos, depois de uma reta final em que acontecimentos imprevistos disputaram espaço com os temas escolhidos pelas campanhas.

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