Com aprovação de reforma, Guaidó pode perder suporte internacional

Para especialista, a mudança no Estatuto de Transição é como se fosse ‘um autogolpe do parlamento’ para se manter no poder

  • Por Jovem Pan
  • 02/01/2021 00h46 - Atualizado em 02/01/2021 00h57
EFE/RAYNER PEÑA R.Para a União Europeia, Juan Guaidó está atropelando a própria lei do país para se manter no poder

A Assembleia Nacional da Venezuela, presidida pelo líder opositor, Juan Guaidó, aprovou e sancionou, no fim de 2020, uma reforma que garante a continuidade do atual parlamento. Na prática, significa que o parlamento de oposição ao presidente Nicolás Maduro, eleito em 2015, e com o mandato prestes a acabar, quer continuar no poder, contrariando a vontade dos venezuelanos que elegeram novos parlamentares em dezembro do ano passado. Em entrevista ao programa Jovem Pan Agora, a professora de Relações Internacionais da Unifesp, Carolina Pedroso, explicou que a aprovação da reforma do Estatuto de Transição é “um atropelo da Constituição venezuelana”, uma vez que parte da Assembleia não quis participar do processo eleitoral por acreditar que as eleições que não seriam “limpas e ‘justas”. “E quando você aprova uma reforma nesse sentido é como se fosse ‘um autogolpe do parlamento’ para se manter no poder”.

Pedroso esclareceu, ainda, que o governo de Maduro não reconhece a manobra. Para o presidente, o parlamento eleito em dezembro é legítimo. Segundo a professora, o cenário de instabilidade política torna o país ainda mais difícil de governar. “Existe um presidente interino reconhecido por uma série de países, que é o Juan Guaidó, que é justamente o líder dessa oposição que não quis participar das eleições de dezembro e que quer se manter como parlamentar por meio dessa reforma. E [do outro lado] a gente tem o presidente de fato, que é quem realmente tem o poder, e que a gente também pode questionar a legitimidade ou não, que é o Nicolas Maduro.” Além do impacto na gestão do país, a especialista destacou que a postura de Guaidó pode fazer com que ele perca o suporte internacional que conquistou nos últimos anos. Inclusive da União Europeia, que tem a tradição de defender valores democráticos.

“Para o bloco, tanto o Nicolás Maduro não é um presidente legítimo porque ele teria aproveitado do poder para se manter ali, dando vantagem aos seus aliados, assim como Guaidó que, nesse momento, também está atropelando a própria lei do país, a própria Constituição, para também se manter no poder”. Diante disso, Pedrosa acredita que a UE talvez possa ajudar o país a encontrar um ponto de equilíbrio. “Pode ser que a União Europeia possa vir a ser um ator importante para tentar reconstruir essa base democrática que está se perdendo na Venezuela. Ou seja, colocar as duas partes para conversar e tentar encontrar um meio termo institucional, eleitoral e democrático para que a Venezuela saia desse impasse”, analisou.