Crise hídrica: quais as explicações para o fenômeno e por que ameaça a retomada econômica

O ONS projeta que, até o fim de julho, os níveis dos reservatórios devem ficar abaixo dos registrados no mesmo período de 2001, ano em que houve racionamento de energia

  • Por Lívia Zanolini
  • 26/07/2021 15h12 - Atualizado em 26/07/2021 15h16
Rene Moreira/Estadão Conteúdo Vista parcial do reservatório da Usina Hidrelétrica de Furnas, em Minas Gerais Diante da redução da capacidade das hidrelétricas, mais termelétricas são ativadas para que não haja interrupção no fornecimento; o custo adicional com o reforço dessas usinas deve chegar a R$ 13 bilhões em novembro

A última temporada de chuvas no Brasil, que se estendeu de setembro de 2020 a março deste ano, registrou a pior entrada de água nos reservatórios das regiões Sudeste e Centro-Oeste em 91 anos de medição. Nessas áreas estão localizadas as principais hidrelétricas brasileiras, responsáveis por mais da metade da energia de fonte hidráulica gerada no país. O Operador Nacional do Sistema Elétrico projeta que, até o fim de julho, os reservatórios devem atingir 26,4% da capacidade máxima, abaixo dos 26,8% registrados no mesmo período de 2001 – ano em que houve racionamento de energia. E não é só. A crise hídrica também já ameaça o abastecimento de água em várias cidades brasileiras.

Mas o que explica o agravamento da estiagem este ano? Segundo especialistas na área ambiental, o fenômeno é resultado da combinação de três fatores principais. Entre eles o La Niña, que é um evento climático natural e ocasional que provoca o resfriamento das temperaturas médias no Oceano Pacífico, resultando na formação de período de seca – que aqui no Brasil atinge as regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul. Já os outros dois fatores são considerados problemas estruturais, que são as mudanças climáticas e o aquecimento global. Vilões do meio ambiente que acabam potencializando os efeitos da estiagem.

Além da iminência de racionamento, a crise hídrica ainda traz outra consequência para o sistema elétrico. Diante da redução da capacidade das hidrelétricas, mais termelétricas são ativadas para que não haja interrupção no fornecimento. Só que, além dos danos ambientais e à saúde, resultantes da queima de combustíveis e de gás, a energia produzida pelas térmicas é mais cara. O custo adicional com o reforço dessas usinas deve chegar a R$ 13 bilhões em novembro. O que, claro, impacta o bolso do consumidor. Recentemente, a bandeira tarifária vermelha, patamar 2 – o nível mais caro do sistema – teve alta de 52%, passando para R$ 9,49. Segundo o Banco Central, as implicações da crise hídrica estão entre os fatores que pressionam a inflação e podem desacelerar a retomada econômica, uma vez que limitam a reação do setor produtivo.

Para combater a vulnerabilidade dos recursos hídricos e, ao mesmo tempo, manter as atividades econômicas e os serviços essenciais, em médio e longo prazos, o presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental, Carlos Bocuhy, explica que é fundamental não deixar as políticas de sustentabilidade para depois. “É preciso que a gente faça a lição de casa consertando aquilo que é possível agora, em tempos de manter os ecossistemas em funcionamento. Isso é possível desde que o país, os Estados e os municípios tenham planos, políticas públicas voltadas para a sustentabilidade. E nós não desenhamos isso no Brasil. Nós temos legislação que diz que é preciso fazer isso, mas nós não construímos, na prática, essa política de sustentabilidade”. Tá Explicado?

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