Sabia que uma rinoceronte já foi eleita vereadora de São Paulo?

O animal, que foi enviado à capital paulista para estrelar a inauguração de um zoológico, acabou se tornando um dos símbolos do voto de protesto no Brasil

  • Por Lívia Zanolini
  • 18/09/2020 10h00 - Atualizado em 20/09/2020 10h14
Estadão ConteúdoCacareco foi a mais votada entre os 540 candidatos que disputavam uma das 45 cadeiras no legislativo municipal

O nome dela era Cacareco. A fêmea de rinoceronte que recebeu quase 100 mil votos nas eleições para a Câmara de Vereadores em 1959. O animal foi o mais votado entre todos os adversários e, claro, o caso chamou a atenção do mundo. O jornal The New York Times foi um dos que noticiaram o fato na época. Há cinco anos, o britânico The Guardian relembrou o caso que marcou a história eleitoral no Brasil. Mas antes de descrever como foi essa eleição inusitada, conheça melhor esta personagem que conquistou o coração de tantos eleitores paulistanos. 

A Cacareco nasceu no Rio de Janeiro, em 1954. Foi a primeira da espécie a nascer em cativeiro na América do Sul. Quatro anos depois, foi emprestada para a capital paulista para estrelar a cerimônia de inauguração do Zoológico de São Paulo. A participação dela foi um pedido do governador da época, Jânio QuadrosO que Jânio talvez não imaginasse é o sucesso que o animal faria. O governador chegou a brincar dizendo que, com a fama que Cacareco tinha alcançado, ela seria uma forte candidata ao governo do estado. E essa história de eleição acabou acontecendo de verdade! Só que o animal concorreu a uma cadeira na Câmara de Vereadores, em vez de uma vaga como chefe do estado. 

A candidatura foi ideia de um jornalista, em protesto contra os políticos da época, e a iniciativa ganhou o apoio da população. Segundo a Assembleia Legislativa de São Paulo, Cacareco ganhou até santinhos e uma trova que dizia mais ou menos o seguinte: “cansados de tanto sofrer e de levar peteleco, vamos agora responder votando no Cacareco”.  E toda essa mobilização popular por causa da insatisfação com os governantes acabou se refletindo nas urnas. Dos 934.794 eleitores que compareceram no dia da votação, quase 100 mil votos foram para Cacareco. Ela foi a mais votada entre os 540 candidatos que disputavam uma das 45 cadeiras no legislativo municipal. Inclusive, a quantidade de votos que ela recebeu daria para eleger todos os 15 vereadores mais votados. 

Por razões óbvias, os quase 100 mil votos de protesto foram considerados nulos e não chegaram a ser computados oficialmente. Assim, naquele ano, Manoel de Figueiredo Ferraz, genro do então prefeito Adhemar de Barros, assumiu o posto de vereador mais votado com 10.214 votos. E não foi a única vez na história brasileira que um animal foi alçado à candidato em eleições. Antes de Cacareco, em 1955, um bode chamado “Cheiroso” venceu as eleições para a Câmara de Jaboatão dos Guararapes, em Pernambuco. Em 1988, no Rio de Janeiro, o famoso macaco Tião – o candidato do povo – recebeu mais de 400 mil votos dos cariocas nas eleições para a prefeitura. 

Mas a mais famosa dessas histórias é mesmo a de Cacareco. Ela morreu cerca de três anos depois da vitória inusitada nas urnas, aos 8 anos de idade. Dois dias antes das eleições ela já havia sido devolvida ao zoológico do Rio de Janeiro. Atualmente, o esqueleto dela está exposto no Museu de Anatomia da USP. Tá explicado?

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